espaço de ser criança!

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domingo, 26 de junho de 2016

TIO ASTUTO - EPÍLOGO





A DANÇA DE SOMBRINHA
Um dia tempo ruim, outro dia tempo bom. Tio Astuto, Jeremias e eu fomos logo pela manhã buscar o Nélio e a Esmeralda e saímos pelos campos, andando a esmo. Estava um dia bonito de sol, o cheiro da terra molhada, as folhas salpicadas de gotas, passarinhos cantando. Demos o cordial olá a dona Maruca e a Esmeralda cismou que tinha de levar a sobrinha nova que ganhou da tia Consuelo, a minha mãe, e levou. Andava com a sombrinha aberta sob o sol, uma sombrinha cheia de babados, feita de um tecido em florzinhas miúdas. Era teimosa, não adiantava dizer que não, e sabia que contaria com a boa vontade de nós todos.

Quem não quer que os pais permaneçam juntos e felizes? Claro que eu queria, mas não era o que eu tinha. Fazia tempo já que a minha casa era um caos, fazia tempo que no meio do caos ninguém tinha amor ou atenção para me dar. Por isso, apesar de triste, eu me sentia aliviado. Como me disse o vô Otávio, “a vida segue adiante, e não se demora no passado”. Eu tinha muitos amigos na escola cujos pais eram separados, e eles diziam que a vida tinha melhorado considerando o que tinham antes com as brigas. É que depois de separados, parecia que cada um – pai e mãe – entrava no seu próprio equilíbrio, e aí podia dar mais atenção aos filhos, podia demonstrar mais o seu amor, participar mais de sua vida. E a mamãe explicou que a guarda seria compartilhada. Isto quer dizer que os dois participariam juntos da minha vida, os dois saberiam de mim, decidindo juntos tudo. Era melhor do que o que eu tinha no tempo do caos.

- Bom, já que eles não estão juntos, ainda bem que pelo menos estão vivos e felizes; concluí e me arrependi tremendamente quando vi o Nélio arregalar seus olhos e ficar um silêncio pesado no ar. É que os pais do Tio Astuto tinham morrido num acidente de carro quando vinham do Sul visitar a vovó, e só ele sobreviveu, por um milagre, pois o acidente foi feio. Ele tinha cinco anos quando isso aconteceu, e ele acabou sendo criado pela tia Adelaide e meus avós. Tio Astuto  quebrou o silêncio e veio em meu socorro:

- É verdade o que o Caio disse. É melhor que eles estejam vivos e felizes. Sinto muita saudade dos meus pais, gostaria que estivessem aqui, mas não estão. Tenho, porém, tantas lembranças boas, o vovô e a vovó contam tantas histórias bonitas, jamais perderei as coisas que guardo na memória. Construa também sua boa memória, Caio, ela é boa companheira, e como disse o vovô, a vida segue adiante e não se demora no passado.

- É, e é melhor isso que um mau padrasto saindo escorraçado por uma velhota!; arrematou o Nélio com uma cara séria. A gente se entreolhou, a cara dele estava engraçada e a fala dele parecia uma piada, e nós acabamos caindo numa gargalhada.

Era bom demais ter amigos como aqueles. Não valia trocá-los pelos falsos afagos de uma menina linda, mas mimada, que acreditava demais no encanto da sua beleza externa apenas. Beleza por fora conta bem pouco, eu aprendi, era mais bonita a beleza interior. Dei uma risada pensando nisso e ao contar ao Tio Astuto ele também riu, andando comigo pondo os braços sobre os meus ombros. Na frente iam correndo a Esmeralda dançando com sua sombrinha,  e só pra espicaçá-la o Nélio tirou-lhe a sombrinha e foi jogando para cada um de nós, fazendo-a de boba. Corríamos dela dançando com sua sombrinha, ela gritava atrás de nós, xingando, brava e nós todos ríamos dançando a esmo para lá e para cá.

Minha aproximação do Jeremias aproximou também o tio do sobrinho, dissipando as diferenças que eles tinham, pois vimos todos o bom camarada que o Jeremias sabia ser. Ele também ficou mais feliz e mais à vontade no meio de nós, sendo mesmo parte do grupo. 

Eu sabia que teria que voltar e que na volta, uma nova vida me esperava. Eu levava dessas férias com meus primos grandes aprendizados e grandes experiências, pois aprendi a ser mais alegre e mais seguro. O vovô, citando um tal de Tagore, um filósofo indiano, diz que o amor é o real significado de tudo o que nos cerca. Não é um simples sentimento, é ele que traz  a verdade, constrói a alegria, dá origem a toda criação, e que a amizade sincera é a melhor coisa desse mundo. Eu concordo, e acho também que uma nova vida aguardava esse novo Caio que eu agora era:

- Um menino feliz dançando de sombrinha a vida e a amizade sincera!

FIM.

TIO ASTUTO - CAP 15





O GIGANTE APARECE
O Jeremias sempre gostou de ser grande, de ser mais velho que o tio, e evitava de estar muito próximo de nós para não ser confundido com um menino. Não tendo outra escolha, ficava, mas à distância, guardando sua maioridade sobre nós, e fugindo léguas do Bentinho, pois estar em casa era ficar olhando o irmão ou tia Adelaide e os avós ralhavam com ele. Naquela noite fatídica, ao nos acompanhar, ele nos seguiu por dois motivos: primeiro para evitar que fizéssemos alguma besteira, e a segunda foi para participar de nossas estripulias. O que se passou com o peixe não foi culpa dele, “as coisas acontecem sem a minha mão”, foi o que ele disse.

- Você não está aqui agora sem a minha mão?; fitou-me firmemente e tive que concordar que sim. É que depois daquele beijo eu me afastei do Tio Astuto, achei-me traído pelo meu amigo, achei-me de novo pequeno na minha autoestima, por isso nem voltei mais à cidade ou à casa da dona Maruca. Passei a andar mais com o Jeremias e a conhecer o seu mundo. Nélio ficou bravo comigo, não disse nada, porém seu olhar era ressentido para mim e eu não me animava a me explicar, estava triste. Parece que o Tio Astuto e o Jeremias também andaram discutindo por mim, acirrando mais a antiga pendenga que havia entre os dois.  Foi aí que eu soube o motivo dessa rivalidade. Na verdade o Tio Astuto era para ser Júnior, porque carregava o mesmo nome do pai - Astolfo Assis de Bartolli Júnior – ao invés disso, carregava consigo essa mágoa, essa coisa como se o nome tivesse sido tirado dele, a grande herança do pai para ele, além dos livros que ele tinha. Então, o que lhe restou, foram os livros do pai que ele lia, para tentar puxar o gênio do pai, pescador dos bons e bom contador de “causos”.

Senti falta de minha mãe ouvindo aquilo. Fazia tempo que ela não ligava, e nem o meu pai. Os dois andavam sempre muito ocupados, não se falavam muito também nos últimos tempos. Não tinha sido sempre assim - ela era presente, conversava abertamente comigo, participava da minha vida, dava conselhos e ralhava comigo quando necessário. Agora não, consigo no máximo uma bronca por telefone.

Antigamente ela e meu pai estavam sempre comigo, a gente passeava em parques, em festas de amigos, em casa. De repente tudo foi sumindo, as pessoas também deixaram de aparecer,  vieram as brigas e caos e depois o silêncio sobre as ruínas, eu lá entre elas. Acho que foi isso aquele meu sonho de lixo tecnológico. Eu me sentia parte dele.

Mamãe às vezes me carrega nos seus compromissos, uma forma talvez de compensar a sua ausência. Isso não resolve, pois eu me sinto como a sua bolsa, largada ao lado, sem vida, um acessório apenas. Papai também trabalha muito e nos finais de semana lê seu jornal, vai a compromissos, a infindáveis reuniões e à noite dorme no sofá. Não sobra tempo para nós,  não temos muito o que conversar.

Tem muita semelhança com minha antiga mãe a tia Adelaide: carinhosa com seus filhos, presente, cautelosa e brava quando tem de ser, lá do jeito dela. Havia um assunto proibido na casa, não se falava muito nisso, mas o pai do Jeremias e do Bentinho, o tio Alfredo, sumiu de repente, largando tia Adelaide sozinha com os meninos ainda bem pequenos. Eu ficava olhando o jeito dela com eles, beijo para lá, beijo para cá, pomadinhas, remedinhos, comidinhas, até os xingamentos que ela dava eram uma forma de atenção. E de pai, eles não precisavam, eles tinham o vô Otávio. Será que ela gostaria que eu fosse seu filho?

É, eu estava muito triste, e andar com o Jeremias, com seu jeito calado olhando nuvens, olhando o nada, isso me reconfortava, pois eu não precisava dizer nada também. Numa de nossas poucas conversas ele me explicou sobre a Esmeralda, explicou-me que eles já foram namorados várias vezes, eles vêm e vão, é assim que eles são. Ao dizer isso jogou uma pedra na água mansa do rio e ficamos olhando as ondas formadas se espalhando. Estávamos quietos, serenos, o sol estava quente, tínhamos uma boa sombra de árvore, quando de repente ouvi batidas fortes e pesadas no chão, e um vozeirão repetindo:

- Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão!

Arregalei os olhos buscando ver de onde vinha aquilo, e sentia tanto o barulho das pisadas no chão quanto a voz se aproximarem cada vez mais. Jeremias sorria para a minha cara de espanto. Logo, logo apareceu perto de nós um gigante negro, alto, alto, grande e gordo, vestido em camisa xadrez agarrada ao corpo e abotoada até o pescoço, as calças largas abotoadas e presas por um cinto grande, as barras das calças dobradas pouco acima dos tornozelos, e pés enormes, enormes de um gigante. Ele estendeu a sua grande mão para mim e soltou sua voz de trovão:

 - Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão!

Fiquei paralisado, morrendo de medo, e como eu não me movesse, ele se voltou para o Jeremias, estendendo a mão. Meu primo brincou um pouco com ele, dançando para lá e para cá em volta dele. O gigante sorria e o seguia, dançando também, repetindo seu pedido por um milhão. Seus pés no chão eram estrondosos, ao contrário dos do Jeremias, tão leves a pularem e rodopiarem. Era assim que ele governava o céu, eu achei, e tive medo de quanto isso poderia demorar, pois eu tinha medo do gigante. Finalmente Jeremias tirou do bolso do short uma moeda e lhe entregou. Ele sorriu para nós dois mexendo a moeda na mão e foi-se embora mata adentro, com seu grito, com seu andar de gigante sacudindo o mundo. Fiquei um tempo assim parado e depois me debrucei na árvore escondendo o rosto entre as mãos e comecei a chorar, chorar muito, chorar em soluços, por muito tempo, até limpar toda a tristeza que estava sentindo. Meu primo me abraçou e eu me abracei a ele como se abraça a um amigo.

Quando voltamos para casa  estavam na sala todos os meninos, minha avó e meu avô e todos me olhavam de um jeito silencioso, pareciam ter pena de mim, pareciam adivinhar a conversa que mais tarde eu teria. Ouvi os passos de minha mãe vindo do corredor em que ficavam os quartos. Conhecia aquele andar sobre saltos bem altos ecoando por tudo. Ao vê-la corri a abraçá-la e ela me abraçou bem forte. Foi tão bom tê-la ali naquela hora, no momento certo em que eu precisava tanto dela. Senti tanto amor! Minha alegria voltou logo, fiquei animado ao seu lado, ela me achou corado, bonito, e disse que tinha sentido a minha falta. Fiquei tão feliz! Meus amigos sorriam para mim enternecidos, tínhamos voltado ao normal.

Após o almoço a mamãe disse que precisávamos ter uma conversa e me chamou para o escritório do vovô. Fomos sozinhos, sob os olhares compridos de todo mundo. Quando voltamos, eu era filho de pais separados. Eu estava muito mole naquele dia, chorei a tarde inteira trancado no quarto.

À noite vi da minha janela que o Jeremias não foi para a pedra, mesmo fazendo um céu danado de bonito. Acho que ele governava o céu através do gigante, dando-lhe as moedas para fazer a noite que ele queria.

Eu queria ter um gigante também para mim!

TIO ASTUTO - CAP 14





O VULCÃO E O LAGO
- Era uma vez um vulcão que queria ser lago. Ele queria, mas ele não era lago. Olhava para o lago aos seus pés, refletindo em suas águas cristalinas céu, nuvem, e os caminhos do sol. Achava as águas do lago transparentes, harmoniosas, plácidas. Água viva que fazia brotarem flores, dando vida a homem e  animal, sendo alimento da terra e do ar, tudo aquilo que ele matava com as suas lavas internas -  vermelhas, ardentes, borbulhantes. Bem que ele as segurava, tentava contê-las, tentava não ser vulcão. Acontece que contra a sua força e a sua vontade, elas davam voltas em suas entranhas, dizendo-lhe sempre que ele era vulcão. O vulcão no seu silêncio, não via que lhe subiam, externas, florzinhas miudinhas bordando-o de roxo e lilás...

- Vamos Etelvina, está na hora! ; acordamos todos da história do Tio Astuto com a chegada da dona Vânia subitamente interrompendo a história.

- Espera, mamãe, quero ouvir o final da história!

- Vamos, já anoitece! Depois você ouve! E foi descendo carregando o bolo e tirando a minha Etelvina do meu lado. Ela a seguia contrariada, quase arrastada pela varanda, quase querendo chorar.

- Pode ir, ainda não pensei no fim para essa história; falou sossegadamente o Tio Astuto, talvez querendo aquietar o seu ânimo ou mostrar que ele a tinha inventado. Eu li admiração no olhar da menina, no da Esmeralda também, nos meus próprios ouvidos. Como ele era capaz de inventar essas histórias?! Algo em mim, porém, ficou meio desassossegado, um espinho me cutucou não sei aonde, por dentro, sem entender eu tive um pouco de raiva do meu amigo.

Na cidade de onde eu vinha, lá na escola ou por onde fosse, as meninas não me davam bola porque eu era gordinho. Embora haja um estímulo na cidade para as comidas, para a alimentação errada, salgadinhos, refrigerantes, sanduíches, guloseimas em geral, ceder a isso é perder a forma, é uma condenação a ser excluído. Depois do meu problema com o bullying e a minha terapia, eu fiz uma terapia de reeducação alimentar e parei de comer por compulsão, mas continuava gordinho. Também porque puxei o lado do vovô – ele e minha mãe são meio cheinhos. Por isso, além de ser meu primeiro beijo, Etelvina foi também especial por me devolver uma admiração por mim, por me fazer sentir bem comigo, aceitar-me como sou.

Foi tudo isso que senti naquele beijo. Além da emoção normal de um primeiro beijo, ainda a minha aceitação. Foi por isso que na quarta-feira, quando acompanhei o Tio Astuto levando as encomendas da dona Maruca fiquei muito cismado quando a Etelvina correu a nos encontrar na venda e foi logo puxando papo com o meu primo-tio querendo saber do final da história. Ela nem parecia me ver. E ele só respondeu secamente que ainda não tinha nada para terminar a história e foi andando embora, com sua camisa voando, seguindo o Jeremias que já ia na frente com a Esmeralda e o Nélio. Ela olhava para ele e eu olhava para ela. Sem a sua atenção, não me restou outra alternativa senão segui-los, calado e triste.

Tia Adelaide tinha encomendado os serviços da dona Vânia na quinta-feira, pois teria apresentação do seu coral na igreja. Faria as unhas e o cabelo, assim como a vovó e a tia Ruth, pois elas veriam a apresentação. O vovô ficaria tomando conta da gente. Saía um cheiro bom de empadão de frango da vovó que dava água na boca. Era de tarde quando elas chegaram e a gente nem sabia dessa visita, estávamos todos jogando futebol no quintal, sujos de doer. Tio Astuto fez um gol em mim justamente na hora em que vi Etelvina aparecer na porta da cozinha e todos comemorarem a sua façanha.

- Lá vem a chata!; disse Esmeralda com desdém fazendo rirem os meninos, menos eu.

Cumprimentamo-nos de longe e ela entrou para junto das senhoras. Entrei também para tomar banho, negando-me pela primeira vez a seguir o Nélio e o Tio Astuto numa brincadeira. Eles foram brincar de tiro ao alvo em latas colocadas sobre a pedra do Jeremias. Até o sobrinho brincava com eles, tomando maior distância para o fato de ser maior não lhe dar maior vantagem. Tio Astuto odiava quando ele fazia isso, mas ele fazia, o que tornava mais meritória a sua vitória.

- Eles não gostam muito de mim; murmurou Etelvina ao meu lado no banco do alpendre.

- Que nada, é o jeito caipira deles... - meu Deus, eu não acreditava que aquelas palavras tinham saído da minha boca, que coisa idiota para se dizer. Uma mentira cheia de preconceito, pois eles não gostavam dela mesmo, e o caipira inventava histórias lindas. Fiquei chateado comigo mesmo.

- Aquela negrinha principalmente...ela não é a empregada?; olhou para mim com seu olhar azul. A voz era tão suave, tão doce, a brisa esvoaçando fios dourados de seu cabelo caídos no rosto, a face rosa, e palavras tão preconceituosas. Eu a reconheci tão bem em algumas pessoas que eu tinha conhecido na escola, mas ela era tão linda e para mim, era a minha namorada, meu primeiro beijo dado pela menina mais linda do mundo, que acabei concordando que sim, que Esmeralda era empregada,  para meu pesar.

É que depois disso surgiram três problemas e três desgraças. Esmeralda entrou como um vulcão na sala ao saber que dona Vânia tinha vindo arrumar minhas tias e a vovó e quis porque quis também ser arrumada. E tanto a menina insistia, dizendo que queria cortar os cabelos, que queria ser maquiada, tanto, tanto, que a vovó permitiu, mesmo sem consultar -lhe a comadre. Dona Vânia e Etelvina entreolharam-se achando estranha a cena, achando-a abusada. Estranharam mais ainda quando Tio Astuto entrou correndo na sala, todo suado e puxou Esmeralda para a varanda, longe dos adultos.

- Não vá cortar esse cabelo, Esmeralda!; e falou tão firme que ela obedeceu e voltou para a sala pedindo apenas uma maquiagem. Etelvina assistiu a cena admirada.

Mais tarde surgiu Esmeralda no quintal – com sombra, batom, cabelos arrumados - e andava entre nós, exibindo o que julgava ser sua nova beleza ainda mais realçada. Encostava-se em mim, no Tio Astuto, no Jeremias e no Nélio, enroscando-se como uma gata,  e brincava com o Bentinho e perguntava se não estava mesmo mais bonita, se não era uma rainha, uma princesa e eles davam risada, e ela de novo provocava. Acho que o encantamento que ela provocava nos meus primos deixou Etelvina, que era tão acostumada a ser linda e ali estava tão ofuscada, enciumada, a ponto de ela soltar uma frase infeliz:

- Uma rainha empregada?; ironizou, fazendo todas as brincadeiras pararem, deixando todos quietos.

- Empregada aqui é sua mãe que veio trabalhar para todas nós, e você é a filha da empregada!; respondeu Esmeralda, abandonando-nos em seguida.  

Depois disso ela só teve a minha companhia, que ninguém mais deu atenção à menina. Quando elas estavam de saída, tia Adelaide pediu nova caixa para o empadão e desta vez Etelvina disse que sabia o caminho, que poderia apanhá-la sozinha, e foi.  Fui para a sala desconsertado, pois concluí que ela só tinha mesmo “ficado” comigo, não era minha namorada. Vi da janela Tio Astuto riscando na árvore com seu canivete, e vi Etelvina se aproximar e falarem qualquer coisa e depois um beijo entre eles, e ela saindo correndo em seguida. Igualzinho ao que tinha feito comigo.

No lugar do lago, um vulcão!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 13





O LAÇO DE FITA NO PORÃO
Acho que a beleza está ligada ao desejo de perfeição, como disse o Tio Astuto, mas também ao conhecimento que a pessoa tem. Para mim Esmeralda era feia, para ele era a perfeição. Para mim a beleza suprema pertencia à menina do salão. Ela tinha uma beleza parecida com a das meninas que eu conhecia na escola, que eu via nos shoppings, só que era ainda mais bonita. Ele, no entanto, sequer tinha reparado na minha princesa. Se para ele a perfeição era algo que em nada deveria ser mudado, como ele podia aceitar como belas as brincadeiras da Esmeralda com os sentimentos dele e do Jeremias? Ela aceitar as injustiças que o sobrinho cometia contra ele? Será que existe mesmo a beleza quando uma pessoa passa a vida toda achando uma única coisa bela e nunca muda de opinião?

O Jeremias se safou bem da minha pergunta, pois a tia Adelaide surgiu alvoroçada na sala e ordenou-lhe brincar um pouco com o Bentinho, pois estava aflita com a visita que receberia à tarde. Ele fugiu de bom grado, carregando o irmão nos ombros e ganhando um beijo da mãe. O Nélio me achou corajoso pela pergunta e o Tio Astuto olhava a chuva da janela, vontade de sair por certo. Sem ter o que fazer, nós fomos ver tia Ruth fazendo roupas para as suas bonecas de pano e vendo como ela e Esmeralda brincavam, juro, deu uma vontade de brincar também, mas isso não é coisa para menino, certo? Errado, pois depois vieram o Jeremias e o Bentinho e nós todos ajudamos a ir fazendo roupas e cabelos para as bonecas de pano, e olhos também. Foi muito legal, e a gente continuou sendo menino mesmo tendo brincado com bonecas.

. Depois, a gente almoçou como sempre, a sexta se esticando, sabe-se lá quando chegaria a quarta, quando acabaria a chuva? A vovó ajudava tia Adelaide num bolo enfeitado que presentearia a uma certa dona Vânia Laeris que, se a chuva deixasse, viria para um lanche à tarde. Tio Astuto, assim que almoçou, sumiu e foi tão ligeiro que, acho, não queria mesmo a nossa companhia, queria amargar lá a amargura dele, pois talvez o amor dele fosse tão platônico quanto o meu.

O Nélio e eu planejávamos como pegar o sobrinho de jeito, cobrar dele uma explicação e uma compostura, pois ainda estávamos zangados com ele. Ética, eu aprendi na escola, e expliquei para o Nélio, é uma palavra que vem do grego e significa um sentimento que nasce com a gente do que é certo e do que é errado, é algo como não trair a confiança. Acontece que, para mim,  “o sobrinho” não tinha sido ético conosco, porém ele fugia com Bentinho e estava difícil de pegá-lo.

Estávamos na varanda, banho tomado, prontinhos,  tudo por ordem da tia Adelaide, até o Tio Astuto, que mesmo com as ameaças da titia não tirou sua camisa, apenas fez o favor de abotoá-la. Jeremias e Bentinho jogavam bolinha de gude e, embora quiséssemos fingir que não dávamos bola para eles, o fato é que o jogo chamava a nossa atenção. Ficamos lá, um olho no jogo, outro no arco-íris no céu, depois no carro do vovô saindo porteira afora, e de novo no jogo. Vô Otávio voltou meia hora depois trazendo a tão esperada Vânia Laeris e sua filha.

Meu coração disparou. Vânia Laeris era a dona do “Salão de Beleza Interior” e com ela vinha sua filha Etelvina, como vim a saber, a minha bela Etelvina. E bem quando elas chegaram estávamos todos ajoelhados no chão batendo nossas bolinhas de gude. Isto foi humilhante e agora eu entendia um pouco o Jeremias. Quando a gente quer parecer grande, não gosta de ficar perto dos pequenos, pois isso nos torna crianças igual a eles. E a Etelvina foi chegar justo quando estávamos todos ajoelhados jogando bolinha com o Bentinho. Levantamo-nos e fomos cumprimentando a senhora conforme tia Adelaide nos ia indicando, porém, logo em seguida às apresentações o Bentinho ia nos puxando, fazendo manha, querendo que voltássemos para o jogo. Que raiva do Bentinho!

A tal de Vânia Laeris era uma mulher bonita, com uma roupa agarrada no corpo desenhando as suas curvas. Parecia desenho. Era maquiada também e mantinha a sua filha impecável. A bela Etelvina tinha as roupas bem bonitas, rendadas, meias e sapatos, laço de fita no cabelo. Às vezes o laço ia escorrendo pelo seu liso cabelo de mel e a mãe logo se aproximava para o arrumar. Ela era gentil e educada, e gostavam de contar as coisas da cidade. Vinham de São Paulo como eu.

Na hora do lanche, estávamos todos à mesa, e já bem orientados pela tia Adelaide: nada de cotovelos na mesa, nada de ficar comendo antes da visita, nada de comer demais atacando os pratos, usar o guardanapo, comer de boca fechada, não segurar a cabeça enquanto mastiga. E especialmente para o Bentinho, se fizesse alguma reclamação ou manha ficaria de castigo dois dias no quarto. Ele arregalou os olhos quando ouviu aquilo. Difícil seria conter tia Ruth. Tia Ruth, ainda não falei, é a irmã mais nova da vovó e que vive lá no sítio morando com eles. Ela nunca se casou, e tem a mania de se servir antes de todos da casa, nunca se senta à mesa, pois gosta de ficar mesmo é lá no quarto costurando roupinhas para as suas bonecas. Mesmo quando era festa ou algo assim, sempre se servia antes cortando um bolo, um pudim, uma arrumação bonita da comida deixando a vovó uma fera e tia Adelaide mais ainda. Naquele dia elas esconderam o bolo até a chegada da visita.

Só a dona Vânia falava. Ela falava sem parar, ria, elogiando a todos sem distinção, sem conhecer ninguém, sendo agradável exageradamente. Era o jeito dela de ser educada. Não dava chance de ninguém falar nada, e então a ouvíamos quietos, querendo rir, mas nos segurando, ouvindo, e a Etelvina às vezes sorrindo para mim, ou para os outros. Foi aí que descobrimos que o “Salão de Beleza Interior” ganhou esse nome porque ela saiu de São Paulo e veio para o interior do Estado, entendeu? Salão de Beleza Interior.

Ao ouvir isso olhei para o Tio Astuto – a gente tinha confabulado tanta coisa para esse nome: se seriam terapias chinesas, ioga, alguma arte oriental – e ele soltou um riso que já andava preso há muito tempo, espirrando bebida na minha cara. O Jeremias, Nélio e Esmeralda soltaram uma gargalhada ao verem minha cara toda molhada e  o Bentinho começou a fazer manha por mais quantidades de bolo, de pão de queijo, de pães, uma confusão. Até o vovô segurava uma risada por baixo de seu bigode branco. Tia Adelaide olhava de todo jeito para eles – torto, fazendo careta, brava - mas ninguém mais os segurava. Eu me continha, a bela Etelvina me olhava pedindo amparo e eu dividido entre a graça deles, minha cara cheia de refrigerante cuspido e o amor da minha musa.

A partir daí, se Etelvina  tinha tentado ser educada com todos, passou a conversar apenas comigo e falamos sobre as coisas da cidade, os shoppings, os filmes, as lanchonetes, as bandas e shows. Bem que fiquei feliz com isso, mas os outros, vendo-se excluídos, foram brincar no quintal e eu fiquei na varanda, sentado ao lado dela, vendo o jogo de cobra cega e os gritos risonhos e espalhafatosos da Esmeralda com os demais.

Tia Adelaide me pediu para ir buscar uma caixa branca  no porão para colocar o bolo que tinha feito para a dona Vânia, e vendo a brincadeira daqueles “trogloditas”, como ela disse, sorriu para Etelvina  sugerindo que me acompanhasse para que não ficasse sozinha no alpendre e nem fosse se sujar na brincadeira enlameada dos outros. Ela deu todas as instruções de onde estava a caixa, mas eu mal a ouvia, meu coração palpitava, pulava forte, minha boca ficou seca de tanta emoção.

Descemos o alpendre e demos a volta na casa para alcançar o porão. Ela me seguia pisando delicadamente no chão, escolhendo atalhos para não sujar o sapato no barro provocado pela chuva. Havia uma escada íngreme para chegar ao porão e Etelvina, receosa, agarrou a minha mão.

- Tenho medo.

Eu lhe sorri, como faria o Tio Astuto e segurei a sua mão, conduzindo-a pelo caminho.  Minha mão suava um pouco e isso me incomodava, tinha medo do que ela podia pensar e até tentei largar da mão dela, mas ela se agarrava fortemente à minha. Deixei e segui , abrindo a porta, acendendo a luz e indo procurar na prateleira indicada. Acho que eu imitava os gestos do meu pai tentando ser adulto, sabendo que era observado por ela.

Havia caixas brancas de variados tamanhos e me vi embasbacado sobre qual escolher. Qual era o tamanho desse bolo?!  Ela achou engraçado e brincamos um pouco sobre os tamanhos das caixas e dos bolos. Peguei a média que encontrei e subíamos a escada já quando ela deu pela falta da fita do seu cabelo. Retornamos ao porão e nem foi preciso acender a luz, a fita amarela brilhava no chão com o reflexo da claridade da porta aberta. Apanhei o laço do chão e entreguei-lhe. Ela amarrou-o de volta aos cabelos olhando fixo para mim, deixando-me um pouco encabulado. Depois me agradeceu tomando a caixa de minha mão ao mesmo tempo em que me dava um beijo na boca e saía correndo.

Fiquei estático: era meu primeiro beijo!