espaço de ser criança!

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terça-feira, 21 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 5



PIPAS
Depois daquele dia no barco nunca mais o meu primo-tio quis brincadeiras perto de casa, era sempre coisas para longe e aí, já sabem, a vovó mandava a Esmeralda nos acompanhar.

Tio Astuto e a Esmeralda se cumprimentavam meio tímidos, acho que ela se envergonhava de ter sido culpada por toda aquela confusão com a pescaria, e o Jeremias corria a carregar a cesta de piquenique para ela. O Nélio e eu ficávamos de olho, estranhando aquela gentileza, pois a gente tinha medo dele ir comendo as coisas mais gostosas no caminho só para zoar.

Meu primo-tio andava com a mesma camisa faltando a  ponta que serviu de curativo para Esmeralda, e ela tinha feito uma tornozeleira com o pedaço da camisa, o verde combinando muito bem com a sua cor.

Levamos folha de seda, cola, varetas e linhas, sem cerol, claro, porque a brincadeira não precisava disso. O cerol é uma mistura de cola e vidro, e os pipeiros que a utilizam querem mesmo é cortar a linha de outros. Nas cidades, por exemplo, as pipas são empinadas em áreas urbanas e o cerol às vezes acaba provocando acidentes com os próprios pipeiros e com outras pessoas como, por exemplo, motoqueiros que têm seus pescoços cortados ao serem atingidos pela linha.  Ali entre nós o cerol poderia ferir qualquer um, ou qualquer animal, ou qualquer vivente que passasse por perto naquela hora, ou depois, quando a brincadeira já tivesse terminado e a linha estivesse jogada em alguma parte. Para que ferir alguém? Afinal as disputas se tornam mais sérias quando são de igual para igual, quando contam mesmo o talento e a maestria. Acho que um pouco de sorte também.

Pois bem. Jeremias montou um quadrado branco sem muito aparato, uma rabiola com poucas cores e pronto. O Nélio fez um telequinho, uma pipa pequena com uma pequena rabiola, mas todo colorido, e eu fiz um suru, uma pipa sem rabo que é a única coisa que sei fazer. A gente aprumando nossas pipas e o Tio Astuto lá montando a dele. Ora a Esmeralda corria para acudir a gente, ora corria pra ver o que ele andava fazendo.

A pipa do Jeremias voou muito, muito, muito alto. Ela ia mais alto que os pássaros, que os urubus, longe, longe no céu, dançando, enquanto ele ficava deitado olhando as nuvens, mascando seu capim, segurando a linha com os pés na lata, e eu e o Nélio sofrendo com nossos telequinhos desobedientes. Ver a pipa dele assim no céu me deu uma sensação estranha, pois me lembrou que ele poderia mesmo ser o governador do céu, e aí então seria mágico, encantador, mas seria também, de novo, uma injustiça.

Fizemos o piquenique, comemos nossos lanches e frutas, bebemos, tinha até bolo feito pela Esmeralda, e então voltamos para as pipas. Só então Tio Astuto nos apresentou sua obra- prima: uma pipa chinesa em formato de borboleta com movimento nas asas. Aquilo era muito mágico, era o máximo! Imagina você uma coisa feita para voar, como as pipas, e essa coisa ter a forma de uma coisa que voa, a borboleta, e bater asas como qualquer ser voante. Meu Deus, tinha uma linguagem nisso que eu não sabia expressar, mas sabia admirar, como todos, acho.

Sabia que as pipas foram criadas na China, por volta do ano mil e duzentos antes do nascimento de Cristo, ou seja, há três mil e duzentos e nove anos atrás?! Quando Tio Astuto começou a nos contar essa história, eu me lembrei também de um livro que tinha ganhado sobre isso. Houve um general que passava avisos aos seus soldados através delas. Tinha gente que acreditava que a pipa tinha um significado religioso de espantar maus espíritos, e até de cura, e as pessoas doentes iam com suas pipas para altas colinas e lá cortavam a linha para que o papagaio levasse seus problemas embora e pudessem começar uma nova vida.

Há uma bonita lenda coreana sobre um general que, ao ver seus soldados desanimados e descrentes da vitória, empinou uma pipa e colocou-lhe uma lanterna. Os soldados olharam admirados aquela estrela grande, bonita, luminosa e ficaram encantados. Ele lhes disse então que era um bom presságio, que aquela nova estrela era um sinal de vitória do seu exército. Isso deu novo alento aos soldados, fez com que eles lutassem com garra, sem medo, acreditando naquele bom presságio e vencerem de verdade a batalha.  O general governou o céu, eu pensei,  e ao olhar para o lado eu vi que aquela história muito interessou ao meu primo Jeremias, coisas de governar o céu, eu imaginei, o que aumentou ainda mais minha suspeita.

- Sabem que no Japão elas chegam a ser obras de arte, e podem atingir tamanhos enormes, precisando de mais de uma pessoa para soltá-las?

Ficávamos de boca aberta vendo e ouvindo  tudo que ele sabia, e o jeito como ele contava era com tanto suspense, tanta emoção, que a gente logo se transportava para a cena que ele nos descrevia.. O Nélio veio acrescentar um seu saber à narrativa:

- Sabem que as pipas foram usadas também pelos escravos nos quilombos? Era como trocavam mensagens avisando a chegada de alguém, ou outros perigos.

A gente ficou olhando admirado e ele esclareceu que tinha ouvido isso de sua mãe, que tinha ouvido de seu avô, que tinha ouvido de um autêntico quilombola, o seu bisavô. Eu queria ouvir mais sobre as histórias de quilombo, mas a borboleta fazia piruetas sensacionais e desviou nossa atenção daquele assunto. Eu não quis dizer a eles do que eu sabia. Eu tinha visto na televisão uma reportagem informando que os traficantes também utilizavam as pipas como forma de aviso. Era o lado triste da história, e eu achei que não devia estragar a nossa fantasia.

A pipa voava linda, uma borboleta toda colorida no céu batendo asas ao comando do nosso amigo. A Esmeralda nem fechava a boca e o sobrinho até que abriu os olhos para dar uma espiada. Ficava alta a pipa do Jeremias lá no infinito, e a obra-prima do Tio Astuto dançando para os nossos olhos. Nélio e eu deitamo-nos olhando aquelas belezuras, pois nosso pescoço já doía de tanto envergá-lo para um lado e outro e, afinal, nossos telequinhos estavam todo estropiados mesmo!

Estava tudo em paz quando a Esmeralda teve a infeliz idéia de prometer contar  o seu segredo para o dono daquela pipa que fosse mais merecedora. De que interessava o segredo da Esmeralda para alguém?! Pois os dois se rivalizaram numa disputa danada. A gente olhava a calmaria do céu transformada em pipas se estudando, buscando o momento certo para as tentativas de confronto direto. Jeremias baixou a sua à altura da borboleta chinesa, e começaram as investidas. Vai para lá, volta, vem, não vem, levanta, enrola, rodopia no céu, faz uma pirueta, e a guerra está instalada entre uma borboleta e um quadrado!

Aos dois não bastava apenas cruzar as linhas, era preciso mostrar muita técnica, perícia e habilidade, e as manobras eram sorrateiras, e eram narradas com antecedência por eles. Não gostava de vê-los assim, aquilo me deixava amargurado, me dava memórias das brigas entre meus pais, no entanto eu não tinha coragem de ir contra a euforia do grupo. Vi a felicidade estampada na cara da Esmeralda por aquele duelo inútil, e me lembrei de como deve ter sido a astúcia da serpente ao oferecer a maçã para Eva no paraíso. Não aguentando ver a felicidade alheia e não sendo capaz de criar a sua própria felicidade, foi perturbar a vida dos outros. Tive raiva da Esmeralda naquela hora. Se eu fosse Deus tinha eliminado a serpente da criação!

Eu viajava pelos meus pensamentos, meus poucos conhecimentos da Bíblia quando uma árvore cortou a linha da borboleta e ela se largou no céu, longe, indo sem dono e sem destino rumo ao seu futuro. Ia indo, sem levar mensagem, sem levar pedido, sem crença de coisa alguma, só indo para perder-se sabe-se lá aonde. Levantamo-nos de um salto e fiquei estatelado, enquanto Tio Astuto saía correndo atrás dela campo afora, o Nélio atrás dele. Deu para ver que tanto a Esmeralda quanto o Jeremias ficaram desapontados. Ninguém queria aquilo, estávamos todos felizes com a obra de arte no céu, eles inclusive. Jeremias olhou para Esmeralda, pegou o canivete e cortou a sua linha, avisando que não queria seu segredo em condições de desigualdade e que o vento, de acordo com a sua conveniência, levaria seu segredo no tempo, trancado para sempre sem resposta. Ela arregalou os olhos assustada, parecia mau presságio, eu também arregalei, e saímos todos correndo atrás dos pipas como se quiséssemos uma salvação do purgatório.

Elas se foram, uma borboleta e um quadrado guardando os segredos de Esmeralda, e nem o governador do céu pôde trazê-las de volta.