espaço de ser criança!

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terça-feira, 21 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 6




O LEÃO CEGO E SURDO

Ficamos só eu e o Tio Astuto sentados na pedra grande da estradinha, perto da porteira. Ninguém tinha vindo brincar com a gente naquele dia: nem Nélio, nem Esmeralda e nem o Jeremias e verdade é que saímos fugidos do Bentinho, pois ele, como já sabem, era mimado demais e era chato aguentar as manhas dele!

Contei-lhe da noite que tinha visto o sobrinho sentado ali na pedra olhando as estrelas e do meu sonho e da minha desconfiança de o Jeremias ser o governador do céu. Tio Astuto me olhou meio embasbacado, parecia que eu lhe contava um monte de novidades e parecia também que se incomodava por eu dar um título tão nobre ao seu sobrinho. Diante de tudo que eu lhe contava, de sua boca saiu apenas a pergunta:

- Acha que ele esperava alguém?

Dessa vez o embasbacado fui eu, pois não poderia afirmar com certeza a existência do meu gigante dócil e horripilante. Mesmo sendo da cidade, isso é coisa difícil de se comprovar  ou se negar assim sem indícios, por isso, para não apavorá-lo, achei por bem responder que não podia ter certeza.

- Pois tenho certeza de uma coisa - ele afirmou de repente, cortando nosso silêncio - está vendo essa marca aqui na pedra? E me apontou uma mancha meio larga na frente, mais estreita atrás e arredondada:

- Veja bem se essa marca não é de um pé!

- O que?!; dei um pulo da pedra conferindo melhor o desenho e totalmente assustado.  Tinha mesmo a forma de um pé, e era dos grandes e estava incrustado na pedra, não era desenho não. Ouvi então a sua história.

- Aconteceu há muito tempo, muito antes do vô Otávio e a vó Eulália pensarem em comprar essas terras. Isso tudo era apinhado de árvore, mato e tinha uma floresta fechada. Dizem que vivia aí animal de toda espécie, de arara a felinos selvagens, macacos, piranhas, tudo quanto se pensasse - eu o ouvia atento e ele calculava pelo meu rosto o tom certo a imprimir em sua narrativa. Com cautela ele inseriu um leão nessa fauna toda e foi tão verossímil que eu nem questionei um leão numa floresta brasileira, ali naquela virada do nada.

Pois o leão andava cego e surdo. Como urrava o bicho, podia-se ouvir de ponta a ponta da floresta e isso fazia estremecerem os animais. Na verdade esse era o jeito que o leão tinha de mostrar que ainda era leão, para que ninguém soubesse que ele estava cego e surdo. Podia haver coisa pior? Já imaginou o macaco sabendo disso? Podia o leão contar com seu instinto, com suas narinas aguçadas, com as garras afiadas, com o conhecimento do seu território, mas o que podia ele contra o inesperado? Nessa batalha dele com o que não conhecia, não era mais ele quem surpreendia a presa, à espreita. Era ele agora era uma fera surpreendida pela vontade de seu caçador, era ele virando presa fácil nessas armadilhas.

- E o que tem o gigante a ver com isso?, indaguei aflito.

- Calma, ouça a historia.

O leão tinha ficado cego por ter espreitado, certa noite, uma deusa chamada Olossá, toda adornada de verde claro banhando-se no rio. Mesmo sendo leão, ele se encantou com a formosura daquela deusa africana, senhora dos lagos e das adivinhações. Como era bela a deusa banhada de lago e de luar! Como era bonito seu canto! O leão, sendo tão poderoso, o rei dos animais e da floresta, sentiu que era direito seu  tê-la só para si e vendo que ela começava a se sentir observada, fugiu dali antes que ela pudesse confirmar a sua presença, a fim de se aconselhar com a coruja para saber como poderia realizar a sua vontade.. Desde aquela visão, ele não pensava em outra coisa que não fosse a formosura da deusa, e o som de seu canto a banhar-se. Planejou então raptá-la e tê-la somente para si, para apenas o seu olhar, apenas para os seus ouvidos. Não adiantavam os conselhos da coruja de que ele tinha sido muito desrespeitoso ao espiar a moça sem seu consentimento, porém, quem podia deter o leão? O macaco veio lhe dar conselhos, dizendo que a deusa tudo adivinhava e já saberia da presença dele, mas ele achava que era brincadeira do animal, e assim também com o tucano. Quem podia deter o leão? O boto, sabedor das coisas de amor veio lhe dizer que não se deve enfurecer uma deusa, ou a vingança será terrível, porém, quem podia deter o leão? De todos ele zombou com arrogância. E sem dar ouvidos a ninguém, na próxima noite de lua cheia ele ficou à espreita, aguardando a chegada da moça, decidido a raptá-la sozinho, assustando-a apenas com seu rugido, afinal de contas ele era o grande leão!

Ela se banhou no rio como de costume e igual foi sua formosura e belo o seu canto para o luar, mas dessa vez, como adivinhara ter sido observada pelo leão, trouxe consigo uma seta e um tambor, e com a seta cegou os olhos do leão, e com o tambor ensurdeceu os seus ouvidos, transformando-o num leão cego e surdo.

Tio Astuto silenciou-se e eu ali esperando a hora do gigante aparecer. Como ele não falava nada, e a pausa se demorava, forcei-o a continuar:

- E o pé do gigante na pedra?

- Eu nunca lhe disse que era do gigante. Veja bem, é a pata do leão, era daqui que ele observava a deusa. Ela, mais prevenida, mudou o curso dos rios, e assim, mudou também o curso da floresta, afastando-se daqui para não ser mais espiada. Daquela história sobraram a pedra e o luar; levantou-se batendo a poeira do calção, seguindo à frente enquanto a sua camisa sacudia ao vento, faltando um pedaço à direita. Dei mais uma olhada no desenho, podia mesmo ser uma pata de leão. Ou um coração.

- E qual a moral da história?; corri-lhe atrás.

- Coração apaixonado é bobo!, e deu uma risada.

Isso?! Acho que o Tio Astuto me escondeu alguma coisa!