O LEÃO CEGO E SURDO
Ficamos só eu e o Tio Astuto sentados
na pedra grande da estradinha, perto da porteira. Ninguém tinha vindo brincar
com a gente naquele dia: nem Nélio, nem Esmeralda e nem o Jeremias e verdade é
que saímos fugidos do Bentinho, pois ele, como já sabem, era mimado demais e
era chato aguentar as manhas dele!
Contei-lhe da noite que tinha visto o
sobrinho sentado ali na pedra olhando as estrelas e do meu sonho e da minha
desconfiança de o Jeremias ser o governador do céu. Tio Astuto me olhou meio
embasbacado, parecia que eu lhe contava um monte de novidades e parecia também
que se incomodava por eu dar um título tão nobre ao seu sobrinho. Diante de
tudo que eu lhe contava, de sua boca saiu apenas a pergunta:
- Acha que ele esperava alguém?
Dessa vez o embasbacado fui eu, pois
não poderia afirmar com certeza a existência do meu gigante dócil e
horripilante. Mesmo sendo da cidade, isso é coisa difícil de se comprovar ou se negar assim sem indícios, por isso, para
não apavorá-lo, achei por bem responder que não podia ter certeza.
- Pois tenho certeza de uma coisa -
ele afirmou de repente, cortando nosso silêncio - está vendo essa marca aqui na
pedra? E me apontou uma mancha meio larga na frente, mais estreita atrás e
arredondada:
- Veja bem se essa marca não é de um
pé!
- O que?!; dei um pulo da pedra
conferindo melhor o desenho e totalmente assustado. Tinha mesmo a forma de um pé, e era dos
grandes e estava incrustado na pedra, não era desenho não. Ouvi então a sua
história.
- Aconteceu há muito tempo, muito
antes do vô Otávio e a vó Eulália pensarem em comprar essas terras. Isso tudo
era apinhado de árvore, mato e tinha uma floresta fechada. Dizem que vivia aí
animal de toda espécie, de arara a felinos selvagens, macacos, piranhas, tudo
quanto se pensasse - eu o ouvia atento e ele calculava pelo meu rosto o tom
certo a imprimir em sua narrativa. Com cautela ele inseriu um leão nessa fauna
toda e foi tão verossímil que eu nem questionei um leão numa floresta
brasileira, ali naquela virada do nada.
Pois o leão andava cego e surdo. Como
urrava o bicho, podia-se ouvir de ponta a ponta da floresta e isso fazia
estremecerem os animais. Na verdade esse era o jeito que o leão tinha de
mostrar que ainda era leão, para que ninguém soubesse que ele estava cego e
surdo. Podia haver coisa pior? Já imaginou o macaco sabendo disso? Podia o leão
contar com seu instinto, com suas narinas aguçadas, com as garras afiadas, com
o conhecimento do seu território, mas o que podia ele contra o inesperado?
Nessa batalha dele com o que não conhecia, não era mais ele quem surpreendia a
presa, à espreita. Era ele agora era uma fera surpreendida pela vontade de seu
caçador, era ele virando presa fácil nessas armadilhas.
- E o que tem o gigante a ver com
isso?, indaguei aflito.
- Calma, ouça a historia.
O leão tinha ficado cego por ter espreitado,
certa noite, uma deusa chamada Olossá, toda adornada de verde claro banhando-se
no rio. Mesmo sendo leão, ele se encantou com a formosura daquela deusa
africana, senhora dos lagos e das adivinhações. Como era bela a deusa banhada
de lago e de luar! Como era bonito seu canto! O leão, sendo tão poderoso, o rei
dos animais e da floresta, sentiu que era direito seu tê-la só para si e vendo que ela começava a se
sentir observada, fugiu dali antes que ela pudesse confirmar a sua presença, a
fim de se aconselhar com a coruja para saber como poderia realizar a sua
vontade.. Desde aquela visão, ele não pensava em outra coisa que não fosse a
formosura da deusa, e o som de seu canto a banhar-se. Planejou então raptá-la e
tê-la somente para si, para apenas o seu olhar, apenas para os seus ouvidos. Não
adiantavam os conselhos da coruja de que ele tinha sido muito desrespeitoso ao
espiar a moça sem seu consentimento, porém, quem podia deter o leão? O macaco
veio lhe dar conselhos, dizendo que a deusa tudo adivinhava e já saberia da
presença dele, mas ele achava que era brincadeira do animal, e assim também com
o tucano. Quem podia deter o leão? O boto, sabedor das coisas de amor veio lhe
dizer que não se deve enfurecer uma deusa, ou a vingança será terrível, porém,
quem podia deter o leão? De todos ele zombou com arrogância. E sem dar ouvidos
a ninguém, na próxima noite de lua cheia ele ficou à espreita, aguardando a
chegada da moça, decidido a raptá-la sozinho, assustando-a apenas com seu
rugido, afinal de contas ele era o grande leão!
Ela se banhou no rio como de costume
e igual foi sua formosura e belo o seu canto para o luar, mas dessa vez, como
adivinhara ter sido observada pelo leão, trouxe consigo uma seta e um tambor, e
com a seta cegou os olhos do leão, e com o tambor ensurdeceu os seus ouvidos,
transformando-o num leão cego e surdo.
Tio Astuto silenciou-se e eu ali
esperando a hora do gigante aparecer. Como ele não falava nada, e a pausa se
demorava, forcei-o a continuar:
- E o pé do gigante na pedra?
- Eu nunca lhe disse que era do gigante.
Veja bem, é a pata do leão, era daqui que ele observava a deusa. Ela, mais
prevenida, mudou o curso dos rios, e assim, mudou também o curso da floresta,
afastando-se daqui para não ser mais espiada. Daquela história sobraram a pedra
e o luar; levantou-se batendo a poeira do calção, seguindo à frente enquanto a
sua camisa sacudia ao vento, faltando um pedaço à direita. Dei mais uma olhada
no desenho, podia mesmo ser uma pata de leão. Ou um coração.
- E qual a moral da história?; corri-lhe
atrás.
- Coração apaixonado é bobo!, e deu
uma risada.
Isso?!
Acho que o Tio Astuto me escondeu alguma coisa!
