espaço de ser criança!

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domingo, 26 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 14





O VULCÃO E O LAGO
- Era uma vez um vulcão que queria ser lago. Ele queria, mas ele não era lago. Olhava para o lago aos seus pés, refletindo em suas águas cristalinas céu, nuvem, e os caminhos do sol. Achava as águas do lago transparentes, harmoniosas, plácidas. Água viva que fazia brotarem flores, dando vida a homem e  animal, sendo alimento da terra e do ar, tudo aquilo que ele matava com as suas lavas internas -  vermelhas, ardentes, borbulhantes. Bem que ele as segurava, tentava contê-las, tentava não ser vulcão. Acontece que contra a sua força e a sua vontade, elas davam voltas em suas entranhas, dizendo-lhe sempre que ele era vulcão. O vulcão no seu silêncio, não via que lhe subiam, externas, florzinhas miudinhas bordando-o de roxo e lilás...

- Vamos Etelvina, está na hora! ; acordamos todos da história do Tio Astuto com a chegada da dona Vânia subitamente interrompendo a história.

- Espera, mamãe, quero ouvir o final da história!

- Vamos, já anoitece! Depois você ouve! E foi descendo carregando o bolo e tirando a minha Etelvina do meu lado. Ela a seguia contrariada, quase arrastada pela varanda, quase querendo chorar.

- Pode ir, ainda não pensei no fim para essa história; falou sossegadamente o Tio Astuto, talvez querendo aquietar o seu ânimo ou mostrar que ele a tinha inventado. Eu li admiração no olhar da menina, no da Esmeralda também, nos meus próprios ouvidos. Como ele era capaz de inventar essas histórias?! Algo em mim, porém, ficou meio desassossegado, um espinho me cutucou não sei aonde, por dentro, sem entender eu tive um pouco de raiva do meu amigo.

Na cidade de onde eu vinha, lá na escola ou por onde fosse, as meninas não me davam bola porque eu era gordinho. Embora haja um estímulo na cidade para as comidas, para a alimentação errada, salgadinhos, refrigerantes, sanduíches, guloseimas em geral, ceder a isso é perder a forma, é uma condenação a ser excluído. Depois do meu problema com o bullying e a minha terapia, eu fiz uma terapia de reeducação alimentar e parei de comer por compulsão, mas continuava gordinho. Também porque puxei o lado do vovô – ele e minha mãe são meio cheinhos. Por isso, além de ser meu primeiro beijo, Etelvina foi também especial por me devolver uma admiração por mim, por me fazer sentir bem comigo, aceitar-me como sou.

Foi tudo isso que senti naquele beijo. Além da emoção normal de um primeiro beijo, ainda a minha aceitação. Foi por isso que na quarta-feira, quando acompanhei o Tio Astuto levando as encomendas da dona Maruca fiquei muito cismado quando a Etelvina correu a nos encontrar na venda e foi logo puxando papo com o meu primo-tio querendo saber do final da história. Ela nem parecia me ver. E ele só respondeu secamente que ainda não tinha nada para terminar a história e foi andando embora, com sua camisa voando, seguindo o Jeremias que já ia na frente com a Esmeralda e o Nélio. Ela olhava para ele e eu olhava para ela. Sem a sua atenção, não me restou outra alternativa senão segui-los, calado e triste.

Tia Adelaide tinha encomendado os serviços da dona Vânia na quinta-feira, pois teria apresentação do seu coral na igreja. Faria as unhas e o cabelo, assim como a vovó e a tia Ruth, pois elas veriam a apresentação. O vovô ficaria tomando conta da gente. Saía um cheiro bom de empadão de frango da vovó que dava água na boca. Era de tarde quando elas chegaram e a gente nem sabia dessa visita, estávamos todos jogando futebol no quintal, sujos de doer. Tio Astuto fez um gol em mim justamente na hora em que vi Etelvina aparecer na porta da cozinha e todos comemorarem a sua façanha.

- Lá vem a chata!; disse Esmeralda com desdém fazendo rirem os meninos, menos eu.

Cumprimentamo-nos de longe e ela entrou para junto das senhoras. Entrei também para tomar banho, negando-me pela primeira vez a seguir o Nélio e o Tio Astuto numa brincadeira. Eles foram brincar de tiro ao alvo em latas colocadas sobre a pedra do Jeremias. Até o sobrinho brincava com eles, tomando maior distância para o fato de ser maior não lhe dar maior vantagem. Tio Astuto odiava quando ele fazia isso, mas ele fazia, o que tornava mais meritória a sua vitória.

- Eles não gostam muito de mim; murmurou Etelvina ao meu lado no banco do alpendre.

- Que nada, é o jeito caipira deles... - meu Deus, eu não acreditava que aquelas palavras tinham saído da minha boca, que coisa idiota para se dizer. Uma mentira cheia de preconceito, pois eles não gostavam dela mesmo, e o caipira inventava histórias lindas. Fiquei chateado comigo mesmo.

- Aquela negrinha principalmente...ela não é a empregada?; olhou para mim com seu olhar azul. A voz era tão suave, tão doce, a brisa esvoaçando fios dourados de seu cabelo caídos no rosto, a face rosa, e palavras tão preconceituosas. Eu a reconheci tão bem em algumas pessoas que eu tinha conhecido na escola, mas ela era tão linda e para mim, era a minha namorada, meu primeiro beijo dado pela menina mais linda do mundo, que acabei concordando que sim, que Esmeralda era empregada,  para meu pesar.

É que depois disso surgiram três problemas e três desgraças. Esmeralda entrou como um vulcão na sala ao saber que dona Vânia tinha vindo arrumar minhas tias e a vovó e quis porque quis também ser arrumada. E tanto a menina insistia, dizendo que queria cortar os cabelos, que queria ser maquiada, tanto, tanto, que a vovó permitiu, mesmo sem consultar -lhe a comadre. Dona Vânia e Etelvina entreolharam-se achando estranha a cena, achando-a abusada. Estranharam mais ainda quando Tio Astuto entrou correndo na sala, todo suado e puxou Esmeralda para a varanda, longe dos adultos.

- Não vá cortar esse cabelo, Esmeralda!; e falou tão firme que ela obedeceu e voltou para a sala pedindo apenas uma maquiagem. Etelvina assistiu a cena admirada.

Mais tarde surgiu Esmeralda no quintal – com sombra, batom, cabelos arrumados - e andava entre nós, exibindo o que julgava ser sua nova beleza ainda mais realçada. Encostava-se em mim, no Tio Astuto, no Jeremias e no Nélio, enroscando-se como uma gata,  e brincava com o Bentinho e perguntava se não estava mesmo mais bonita, se não era uma rainha, uma princesa e eles davam risada, e ela de novo provocava. Acho que o encantamento que ela provocava nos meus primos deixou Etelvina, que era tão acostumada a ser linda e ali estava tão ofuscada, enciumada, a ponto de ela soltar uma frase infeliz:

- Uma rainha empregada?; ironizou, fazendo todas as brincadeiras pararem, deixando todos quietos.

- Empregada aqui é sua mãe que veio trabalhar para todas nós, e você é a filha da empregada!; respondeu Esmeralda, abandonando-nos em seguida.  

Depois disso ela só teve a minha companhia, que ninguém mais deu atenção à menina. Quando elas estavam de saída, tia Adelaide pediu nova caixa para o empadão e desta vez Etelvina disse que sabia o caminho, que poderia apanhá-la sozinha, e foi.  Fui para a sala desconsertado, pois concluí que ela só tinha mesmo “ficado” comigo, não era minha namorada. Vi da janela Tio Astuto riscando na árvore com seu canivete, e vi Etelvina se aproximar e falarem qualquer coisa e depois um beijo entre eles, e ela saindo correndo em seguida. Igualzinho ao que tinha feito comigo.

No lugar do lago, um vulcão!