O VULCÃO E O LAGO
- Era uma vez um vulcão que queria
ser lago. Ele queria, mas ele não era lago. Olhava para o lago aos seus pés,
refletindo em suas águas cristalinas céu, nuvem, e os caminhos do sol. Achava
as águas do lago transparentes, harmoniosas, plácidas. Água viva que fazia
brotarem flores, dando vida a homem e
animal, sendo alimento da terra e do ar, tudo aquilo que ele matava com
as suas lavas internas - vermelhas,
ardentes, borbulhantes. Bem que ele as segurava, tentava contê-las, tentava não
ser vulcão. Acontece que contra a sua força e a sua vontade, elas davam voltas
em suas entranhas, dizendo-lhe sempre que ele era vulcão. O vulcão no seu
silêncio, não via que lhe subiam, externas, florzinhas miudinhas bordando-o de
roxo e lilás...
- Vamos Etelvina, está na hora! ;
acordamos todos da história do Tio Astuto com a chegada da dona Vânia
subitamente interrompendo a história.
- Espera, mamãe, quero ouvir o final
da história!
- Vamos, já anoitece! Depois você
ouve! E foi descendo carregando o bolo e tirando a minha Etelvina do meu lado.
Ela a seguia contrariada, quase arrastada pela varanda, quase querendo chorar.
- Pode ir, ainda não pensei no fim
para essa história; falou sossegadamente o Tio Astuto, talvez querendo aquietar
o seu ânimo ou mostrar que ele a tinha inventado. Eu li admiração no olhar da
menina, no da Esmeralda também, nos meus próprios ouvidos. Como ele era capaz
de inventar essas histórias?! Algo em mim, porém, ficou meio desassossegado, um
espinho me cutucou não sei aonde, por dentro, sem entender eu tive um pouco de
raiva do meu amigo.
Na cidade de onde eu vinha, lá na
escola ou por onde fosse, as meninas não me davam bola porque eu era gordinho.
Embora haja um estímulo na cidade para as comidas, para a alimentação errada,
salgadinhos, refrigerantes, sanduíches, guloseimas em geral, ceder a isso é
perder a forma, é uma condenação a ser excluído. Depois do meu problema com o bullying
e a minha terapia, eu fiz uma terapia de reeducação alimentar e parei de comer
por compulsão, mas continuava gordinho. Também porque puxei o lado do vovô –
ele e minha mãe são meio cheinhos. Por isso, além de ser meu primeiro beijo,
Etelvina foi também especial por me devolver uma admiração por mim, por me
fazer sentir bem comigo, aceitar-me como sou.
Foi tudo isso que senti naquele
beijo. Além da emoção normal de um primeiro beijo, ainda a minha aceitação. Foi
por isso que na quarta-feira, quando acompanhei o Tio Astuto levando as
encomendas da dona Maruca fiquei muito cismado quando a Etelvina correu a nos
encontrar na venda e foi logo puxando papo com o meu primo-tio querendo saber
do final da história. Ela nem parecia me ver. E ele só respondeu secamente que
ainda não tinha nada para terminar a história e foi andando embora, com sua
camisa voando, seguindo o Jeremias que já ia na frente com a Esmeralda e o
Nélio. Ela olhava para ele e eu olhava para ela. Sem a sua atenção, não me
restou outra alternativa senão segui-los, calado e triste.
Tia Adelaide tinha encomendado os
serviços da dona Vânia na quinta-feira, pois teria apresentação do seu coral na
igreja. Faria as unhas e o cabelo, assim como a vovó e a tia Ruth, pois elas
veriam a apresentação. O vovô ficaria tomando conta da gente. Saía um cheiro
bom de empadão de frango da vovó que dava água na boca. Era de tarde quando
elas chegaram e a gente nem sabia dessa visita, estávamos todos jogando futebol
no quintal, sujos de doer. Tio Astuto fez um gol em mim justamente na hora em
que vi Etelvina aparecer na porta da cozinha e todos comemorarem a sua façanha.
- Lá vem a chata!; disse Esmeralda
com desdém fazendo rirem os meninos, menos eu.
Cumprimentamo-nos de longe e ela
entrou para junto das senhoras. Entrei também para tomar banho, negando-me pela
primeira vez a seguir o Nélio e o Tio Astuto numa brincadeira. Eles foram
brincar de tiro ao alvo em latas colocadas sobre a pedra do Jeremias. Até o
sobrinho brincava com eles, tomando maior distância para o fato de ser maior
não lhe dar maior vantagem. Tio Astuto odiava quando ele fazia isso, mas ele
fazia, o que tornava mais meritória a sua vitória.
- Eles não gostam muito de mim;
murmurou Etelvina ao meu lado no banco do alpendre.
- Que nada, é o jeito caipira
deles... - meu Deus, eu não acreditava que aquelas palavras tinham saído da
minha boca, que coisa idiota para se dizer. Uma mentira cheia de preconceito,
pois eles não gostavam dela mesmo, e o caipira inventava histórias lindas.
Fiquei chateado comigo mesmo.
- Aquela negrinha principalmente...ela
não é a empregada?; olhou para mim com seu olhar azul. A voz era tão suave, tão
doce, a brisa esvoaçando fios dourados de seu cabelo caídos no rosto, a face
rosa, e palavras tão preconceituosas. Eu a reconheci tão bem em algumas pessoas
que eu tinha conhecido na escola, mas ela era tão linda e para mim, era a minha
namorada, meu primeiro beijo dado pela menina mais linda do mundo, que acabei concordando
que sim, que Esmeralda era empregada, para meu pesar.
É que depois disso surgiram três
problemas e três desgraças. Esmeralda entrou como um vulcão na sala ao saber
que dona Vânia tinha vindo arrumar minhas tias e a vovó e quis porque quis
também ser arrumada. E tanto a menina insistia, dizendo que queria cortar os
cabelos, que queria ser maquiada, tanto, tanto, que a vovó permitiu, mesmo sem
consultar -lhe a comadre. Dona Vânia e Etelvina entreolharam-se achando
estranha a cena, achando-a abusada. Estranharam mais ainda quando Tio Astuto entrou
correndo na sala, todo suado e puxou Esmeralda para a varanda, longe dos
adultos.
- Não vá cortar esse cabelo,
Esmeralda!; e falou tão firme que ela obedeceu e voltou para a sala pedindo
apenas uma maquiagem. Etelvina assistiu a cena admirada.
Mais tarde surgiu Esmeralda no
quintal – com sombra, batom, cabelos arrumados - e andava entre nós, exibindo o
que julgava ser sua nova beleza ainda mais realçada. Encostava-se em mim, no Tio
Astuto, no Jeremias e no Nélio, enroscando-se como uma gata, e brincava com o Bentinho e perguntava se não
estava mesmo mais bonita, se não era uma rainha, uma princesa e eles davam
risada, e ela de novo provocava. Acho que o encantamento que ela provocava nos
meus primos deixou Etelvina, que era tão acostumada a ser linda e ali estava tão
ofuscada, enciumada, a ponto de ela soltar uma frase infeliz:
- Uma rainha empregada?; ironizou,
fazendo todas as brincadeiras pararem, deixando todos quietos.
- Empregada aqui é sua mãe que veio
trabalhar para todas nós, e você é a filha da empregada!; respondeu Esmeralda,
abandonando-nos em seguida.
Depois disso ela só teve a minha
companhia, que ninguém mais deu atenção à menina. Quando elas estavam de saída,
tia Adelaide pediu nova caixa para o empadão e desta vez Etelvina disse que
sabia o caminho, que poderia apanhá-la sozinha, e foi. Fui para a sala desconsertado, pois concluí
que ela só tinha mesmo “ficado” comigo, não era minha namorada. Vi da janela Tio
Astuto riscando na árvore com seu canivete, e vi Etelvina se aproximar e
falarem qualquer coisa e depois um beijo entre eles, e ela saindo correndo em
seguida. Igualzinho ao que tinha feito comigo.
No lugar do lago, um vulcão!
