espaço de ser criança!

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sexta-feira, 24 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 12





A BELA ETELVINA
Dona Maruca vendia bolos, salgados e pães para a venda do “Nhô Neco”. Nhô, era como ela se referia ao “Seu” Neco, era a maneira dos escravos falarem senhor, uma abreviatura e sei lá porque ela chamava o dono da venda com esse nome, pois ela nem era tão velha assim. Enfim, era como dona Maruca  o chamava, e não seríamos nós a mudar isso.

Pois bem, o Tio Astuto resolveu ajudá-la com essa tarefa e então, todas as manhãs  de segunda, quarta e de sexta passaria por lá para levar as encomendas dela para a venda. Esses eram os dias de maior movimento do armazém, justamente pelos quitutes de dona Maruca. Ia bem cedinho, e, confesso, não era em todas as vezes que eu ia, pois dormia um pouco mais às vezes. Quando acordava ele já tinha ido e voltado e em segredo, pois não era para ninguém ficar sabendo. Respeitei, pois era perigoso o Jeremias roubar-lhe mais essa honra.

Certo dia, porém, eu resolvi acompanhá-lo. Batemos na casa da senhora, e lá já encontramos o Nélio e a Esmeralda que, mesmo sem uma ordem específica de minha avó, resolveu que deveria nos acompanhar. Evidentemente o Tio Astuto não retrucou, claro, agora eu já sabia, ele gostava da companhia dela e assim fomos, manhã afora. Estavam meio tediosos aqueles dias sem nada muito grandioso por fazer e o calor andava exagerado. Além disso, o Nélio e eu resolvemos dar uma geladeira no “sobrinho”, por isso até que saíamos quando ele não podia nos ver.

Ficamos sentados no banco instalado no alpendre da venda, olhando o movimento da rua, o Nélio e eu chupando um sorvete, enquanto lá dentro o Tio Astuto e a Esmeralda faziam as entregas das coisas, quer dizer, ela ficava lá se demorando em escolher um doce ou um sorvete com o dinheiro que a vovó nos dava, e ficava fazendo dengos para o lado do Tio Astuto que, nessa hora, tinha uma paciência danada.

Do outro lado da rua vimos que a casa que antes era fechada e abandonada, agora estava toda nova, pintada, e que havia uma verdadeira batalha de um homem tentando colocar a faixa estendida sobre a porta do estabelecimento. Ficamos olhando curiosos, e o Nélio e eu apostávamos sobre o que seria.

- Acho que é uma lanchonete, olha que limpeza!
- Acho que é uma loja de coisas femininas, olhe os vidros bordados!; eu dizia.
- Uma padaria!
- Uma lan house! E aí tive que explicar que “lan house” são casas que alugam a hora de uso de Internet, ou seja, de a gente permanecer no computador deles, acessando a Internet e pagar por esse serviço. O Nélio bem que gostaria que fosse isso, ele disse. E começávamos a falar de jogos e novos lançamentos que eu conhecia quando de repente a faixa esticou-se e apareceu em letras vermelhas, bem caprichadas “Salão de Beleza Interior”.  Sofri um grande impacto com o nome, e ainda estava meio confuso com isso quando, de repente, abriu-se a porta de vidro acortinada e dela saiu a menina mais bonita que meus olhos já puderam ver. Verdade! Linda, linda, linda!

Como explicar essa beleza? Eu estava paralisado, havia perfeição em tudo nela, e em tudo que ela fazia os movimentos eram graciosos, leves, femininos, as palminhas dela para a faixa colocada, seu sorriso, os babados de seu vestido, a fita de seus cabelos cor de mel, a menina cor de mel, o abraço à mãe que logo surgia também à porta para conferir sua euforia! Eu ficaria assim em transe para sempre se a espalhafatosa da Esmeralda não saísse de dentro da venda fazendo um escarcéu porque o Tio Astuto não lhe dera seja lá o que fosse que ela queria e repartiu o dinheiro comprando porções de balas e doces iguais para todos. Egoísta ainda!

Ocorre que seu estardalhaço chamou a atenção da menina e ela então olhou para o Nélio, para mim, para a Esmeralda e as duas se conferiram e depois para o Tio Astuto que saía distraído, repartindo as coisas entre a gente, sem se dar conta da existência dela do outro lado. Um vento vadio sacudiu a faixa provocando ruídos, e foi só aí que ele elevou a vista à faixa e ao que ela dizia, talvez sofrendo o mesmo impacto que eu, e assim ficou, evasivo, olhando a faixa que sacudia pelo mesmo vento que sacudia sua camisa.

Voltamos pelo caminho. Nélio curtindo os doces de seu pacotinho, a Esmeralda se agarrando ao Tio Astuto para arrancar-lhe mais doces, ele fugindo, os dois rindo, acho que estavam namorando, e eu apaixonado pela minha visão.

Salão de Beleza Interior. Salão de beleza, a gente sabe, é aquele lugar em que as nossas mães  demoram horas fazendo as unhas, arrumando os cabelos, rindo de fofocas e haja paciência para aguentar. Agora beleza interior, é uma beleza maior que a beleza de fora, é a beleza que a pessoa carrega por dentro, as virtudes que ela tem, como ser bom, generoso, honesto, leal, amigo, assim como o Tio Astuto e o Nélio. Será que além de transformar as mulheres por fora, ela as transformaria por dentro? Será que transformaria qualquer pessoa? A fofoqueira da tia Ruth ficaria mais discreta? Bonita a menina era, então de beleza aquele salão entendia, isso era certo. Decidido: na próxima sexta-feira daria um jeito de conferir a verdade do salão.

Como os dias ficaram compridos! A quarta se esticou numa preguiça, a gente ficou a tarde inteira jogando “war”, e o Jeremias conquistou o mundo, ele era craque no jogo! Depois fomos jogar bola no quintal, apanhar fruta, esperar a noite, dormir e, antes de me deitar, eu vi o Jeremias lá na pedra dele, como sempre.

Na quinta o vovô levou a turma toda para ver um rodeio na cidade vizinha, foi divertido e o tempo passou voando. Teve prova de laço em dupla, e fiquei admirado de ver a peleja de dois peões tentando laçar a cabeça e as patas do boi no menor tempo possível. Teve prova de montaria, na qual vencia o peão que conseguisse ficar mais tempo no animal, e se ficasse menos de oito segundos já era desclassificado. Puxa, precisava coragem para enfrentar uns animais bravos como aqueles, era pinote para todo lado e os peões firmes lá em cima. Achei engraçada a competição de qual vaca era mais leiteira, e cada dono orgulhoso mostrando qual tinha dado mais leite. As vacas tinham umas caras serenas, orgulhosas, pareciam que se sentiam muito envaidecidas com aquela disputa. Lembrei-me dos desenhos animados que eu assistia em casa. Achei bonita essa competição, parecia uma homenagem à natureza, . Foi isso que pensei e gostei.

Estava contente, animado, pois o dia seguinte seria a ansiada sexta-feira e eu veria de novo a minha musa. Claro que não falei nada dos meus sentimentos para ninguém, pois se até o Tio Astuto me escondera os dele, eu é que não ia falar do meu amor platônico. Sabe, né, amor platônico, aquele amor que só existe na cabeça da gente e às vezes nem chega a ser revelado ou correspondido.

Fui dormir cedo para não perder a hora de acompanhar o Tio Astuto de manhã. Fui, e acordei com estrondosos trovões, relâmpagos, chuva que caía grossa, pesada, de ninguém sair de casa. Pulei da cama na esperança de o Tio Astuto ter alguma ideia, mas ele estava lá quieto, tomando seu café, esperando a chuva se acalmar, mesmo porque a vovó não deixaria a gente sair com aquele tempo. Nem o Nélio e a Esmeralda tinham vindo, sinal que não dava mesmo para sair de casa. Eu morri de raiva, olhava para a chuva com ódio, enquanto a vovó nos oferecia seus bolinhos de chuva, que estavam deliciosos, e o vovô contava para ela as coisas do rodeio e tia Ruth dava palpites com perguntas absurdas.

Estávamos na sala jogando cartas quando de repente surgiu a Esmeralda na soleira da porta, toda encharcada, o vestido colado ao corpo, escorria-lhe água dos cabelos, de toda parte, e o Tio Astuto apenas olhou para ela e sorriu, e ela sorriu também de volta. Foi tão bonita essa troca de sorrisos.  Pensei que queria isso também com a minha deusa. Logo detrás da irmã apareceu o Nélio, molhado da cabeça aos pés, todo encolhido de frio.

- Ela veio, eu vim junto!; ele disse tremendo. Minha avó e minha tia Adelaide foram logo acudi-los com toalhas, levando-os para dentro, dando roupas nossas, um café com leite bem quente, e um sermão daqueles. Quando eles voltaram para a sala já vinham acompanhados do Jeremias, e sem ideia de novas brincadeiras, a Esmeralda propôs um jogo da verdade, com uma garrafa ao centro, girada e apontada a esmo para cada um, para o perguntador e para o perguntado. Caiu na Esmeralda a pergunta e no Tio Astuto a resposta. Eu achei que ela trapaceou no giro da garrafa, pois foi muita coincidência.

- Eu sou bonita?, ela perguntou toda dengosa. Isso é lá pergunta que se faça?! Eu gelei de ouvir essa pergunta, e dei graças a Deus de não ser comigo, mas fiquei com uma dó do meu amigo, pois como ele ia dizer para a Esmeralda que ela era feia? Engraçadinha, mas feia. Pois ele não se assustou, apenas ficou meio envergonhado, estávamos todos olhando para ele, eu sabia que ele teria uma saída genial para aquilo. Pensou um pouco para responder, enquanto era observado por nós todos, até o Jeremias esperava curioso pela sua resposta.

- A beleza está em tudo aquilo que não precisa ser mudado para melhorar. Então, nesse sentido, minha resposta é sim; os olhos dele brilhavam, ele se esforçou bastante para disfarçar o seu sim, e deu uma grande lição e olhava direto nos olhos dela, esperando ver se ela tinha compreendido sua resposta e se tinha gostado.

- Ah! – ela suspirou com desdém, após um longo silêncio em que ela talvez tenha buscado fortemente dentro da sua cabeça entender aquela resposta. Em vão, pois ela não tinha tutano para isso, não percebeu que ele a chamou de perfeição, aquilo que não precisa ser mudado porque já é perfeito exatamente como é. Foi um grandioso elogio, foi uma resposta tão bonita que até parecia uma poesia, só que sem rima.

Além de feia, eu a achava também burrinha e sendo como era, foi logo fazendo a mesma pergunta ao Jeremias, sob os nossos protestos, do Nélio e meus, pois não poderia fazer duas perguntas seguidas. Mesmo assim esperamos todos a resposta dele que, timidamente, balbuciou um “claro!”, deixando-a feliz da vida. Resposta pobre, de impulso, que ele não teria coragem de dizer nem que sim e nem que não. Ela nos abandonou e foi para a cozinha, deixando triste o Tio Astuto que perdeu o gosto pela brincadeira. Girei a garrafa para fazer a pergunta e a dirigi ao Jeremias, em defesa do meu amigo:

- Por que você nos levou àquela emboscada com a dona Maruca?