A BELA ETELVINA
Dona Maruca vendia bolos, salgados e
pães para a venda do “Nhô Neco”. Nhô, era como ela se referia ao “Seu” Neco,
era a maneira dos escravos falarem senhor, uma abreviatura e sei lá porque ela
chamava o dono da venda com esse nome, pois ela nem era tão velha assim. Enfim,
era como dona Maruca o chamava, e não
seríamos nós a mudar isso.
Pois bem, o Tio Astuto resolveu
ajudá-la com essa tarefa e então, todas as manhãs de segunda, quarta e de sexta passaria por lá
para levar as encomendas dela para a venda. Esses eram os dias de maior
movimento do armazém, justamente pelos quitutes de dona Maruca. Ia bem cedinho,
e, confesso, não era em todas as vezes que eu ia, pois dormia um pouco mais às
vezes. Quando acordava ele já tinha ido e voltado e em segredo, pois não era
para ninguém ficar sabendo. Respeitei, pois era perigoso o Jeremias roubar-lhe
mais essa honra.
Certo dia, porém, eu resolvi
acompanhá-lo. Batemos na casa da senhora, e lá já encontramos o Nélio e a
Esmeralda que, mesmo sem uma ordem específica de minha avó, resolveu que
deveria nos acompanhar. Evidentemente o Tio Astuto não retrucou, claro, agora
eu já sabia, ele gostava da companhia dela e assim fomos, manhã afora. Estavam
meio tediosos aqueles dias sem nada muito grandioso por fazer e o calor andava
exagerado. Além disso, o Nélio e eu resolvemos dar uma geladeira no “sobrinho”,
por isso até que saíamos quando ele não podia nos ver.
Ficamos sentados no banco instalado
no alpendre da venda, olhando o movimento da rua, o Nélio e eu chupando um
sorvete, enquanto lá dentro o Tio Astuto e a Esmeralda faziam as entregas das
coisas, quer dizer, ela ficava lá se demorando em escolher um doce ou um
sorvete com o dinheiro que a vovó nos dava, e ficava fazendo dengos para o lado
do Tio Astuto que, nessa hora, tinha uma paciência danada.
Do outro lado da rua vimos que a casa
que antes era fechada e abandonada, agora estava toda nova, pintada, e que
havia uma verdadeira batalha de um homem tentando colocar a faixa estendida
sobre a porta do estabelecimento. Ficamos olhando curiosos, e o Nélio e eu
apostávamos sobre o que seria.
- Acho que é uma lanchonete, olha que
limpeza!
- Acho que é uma loja de coisas
femininas, olhe os vidros bordados!; eu dizia.
- Uma padaria!
- Uma lan house! E aí tive que explicar que “lan house” são casas que
alugam a hora de uso de Internet, ou seja, de a gente permanecer no computador
deles, acessando a Internet e pagar por esse serviço. O Nélio bem que gostaria
que fosse isso, ele disse. E começávamos a falar de jogos e novos lançamentos
que eu conhecia quando de repente a faixa esticou-se e apareceu em letras
vermelhas, bem caprichadas “Salão de
Beleza Interior”. Sofri um grande
impacto com o nome, e ainda estava meio confuso com isso quando, de repente, abriu-se
a porta de vidro acortinada e dela saiu a menina mais bonita que meus olhos já
puderam ver. Verdade! Linda, linda, linda!
Como explicar essa beleza? Eu estava paralisado,
havia perfeição em tudo nela, e em tudo que ela fazia os movimentos eram
graciosos, leves, femininos, as palminhas dela para a faixa colocada, seu sorriso,
os babados de seu vestido, a fita de seus cabelos cor de mel, a menina cor de
mel, o abraço à mãe que logo surgia também à porta para conferir sua euforia!
Eu ficaria assim em transe para sempre se a espalhafatosa da Esmeralda não
saísse de dentro da venda fazendo um escarcéu porque o Tio Astuto não lhe dera
seja lá o que fosse que ela queria e repartiu o dinheiro comprando porções de
balas e doces iguais para todos. Egoísta ainda!
Ocorre que seu estardalhaço chamou a
atenção da menina e ela então olhou para o Nélio, para mim, para a Esmeralda e
as duas se conferiram e depois para o Tio Astuto que saía distraído, repartindo
as coisas entre a gente, sem se dar conta da existência dela do outro lado. Um
vento vadio sacudiu a faixa provocando ruídos, e foi só aí que ele elevou a
vista à faixa e ao que ela dizia, talvez sofrendo o mesmo impacto que eu, e
assim ficou, evasivo, olhando a faixa que sacudia pelo mesmo vento que sacudia
sua camisa.
Voltamos pelo caminho. Nélio curtindo
os doces de seu pacotinho, a Esmeralda se agarrando ao Tio Astuto para
arrancar-lhe mais doces, ele fugindo, os dois rindo, acho que estavam
namorando, e eu apaixonado pela minha visão.
Salão de Beleza Interior. Salão de
beleza, a gente sabe, é aquele lugar em que as nossas mães demoram horas fazendo as unhas, arrumando os
cabelos, rindo de fofocas e haja paciência para aguentar. Agora beleza
interior, é uma beleza maior que a beleza de fora, é a beleza que a pessoa
carrega por dentro, as virtudes que ela tem, como ser bom, generoso, honesto,
leal, amigo, assim como o Tio Astuto e o Nélio. Será que além de transformar as
mulheres por fora, ela as transformaria por dentro? Será que transformaria
qualquer pessoa? A fofoqueira da tia Ruth ficaria mais discreta? Bonita a
menina era, então de beleza aquele salão entendia, isso era certo. Decidido: na
próxima sexta-feira daria um jeito de conferir a verdade do salão.
Como os dias ficaram compridos! A
quarta se esticou numa preguiça, a gente ficou a tarde inteira jogando “war”, e
o Jeremias conquistou o mundo, ele era craque no jogo! Depois fomos jogar bola
no quintal, apanhar fruta, esperar a noite, dormir e, antes de me deitar, eu vi
o Jeremias lá na pedra dele, como sempre.
Na quinta o vovô levou a turma toda para
ver um rodeio na cidade vizinha, foi divertido e o tempo passou voando. Teve
prova de laço em dupla, e fiquei admirado de ver a peleja de dois peões tentando
laçar a cabeça e as patas do boi no menor tempo possível. Teve prova de
montaria, na qual vencia o peão que conseguisse ficar mais tempo no animal, e se
ficasse menos de oito segundos já era desclassificado. Puxa, precisava coragem
para enfrentar uns animais bravos como aqueles, era pinote para todo lado e os
peões firmes lá em cima. Achei engraçada a competição de qual vaca era mais
leiteira, e cada dono orgulhoso mostrando qual tinha dado mais leite. As vacas
tinham umas caras serenas, orgulhosas, pareciam que se sentiam muito
envaidecidas com aquela disputa. Lembrei-me dos desenhos animados que eu
assistia em casa. Achei bonita essa competição, parecia uma homenagem à
natureza, . Foi isso que pensei e gostei.
Estava contente, animado, pois o dia
seguinte seria a ansiada sexta-feira e eu veria de novo a minha musa. Claro que
não falei nada dos meus sentimentos para ninguém, pois se até o Tio Astuto me
escondera os dele, eu é que não ia falar do meu amor platônico. Sabe, né, amor
platônico, aquele amor que só existe na cabeça da gente e às vezes nem chega a
ser revelado ou correspondido.
Fui dormir cedo para não perder a hora de acompanhar o Tio Astuto de
manhã. Fui, e acordei com estrondosos trovões, relâmpagos, chuva que caía
grossa, pesada, de ninguém sair de casa. Pulei da cama na esperança de o Tio
Astuto ter alguma ideia, mas ele estava lá quieto, tomando seu café, esperando
a chuva se acalmar, mesmo porque a vovó não deixaria a gente sair com aquele tempo.
Nem o Nélio e a Esmeralda tinham vindo, sinal que não dava mesmo para sair de
casa. Eu morri de raiva, olhava para a chuva com ódio, enquanto a vovó nos
oferecia seus bolinhos de chuva, que estavam deliciosos, e o vovô contava para
ela as coisas do rodeio e tia Ruth dava palpites com perguntas absurdas.
Estávamos na sala jogando
cartas quando de repente surgiu a Esmeralda na soleira da porta, toda
encharcada, o vestido colado ao corpo, escorria-lhe água dos cabelos, de toda
parte, e o Tio Astuto apenas olhou para ela e sorriu, e ela sorriu também de
volta. Foi tão bonita essa troca de sorrisos.
Pensei que queria isso também com a minha deusa. Logo detrás da irmã apareceu
o Nélio, molhado da cabeça aos pés, todo encolhido de frio.
- Ela veio, eu vim
junto!; ele disse tremendo. Minha avó e minha tia Adelaide foram logo acudi-los
com toalhas, levando-os para dentro, dando roupas nossas, um café com leite bem
quente, e um sermão daqueles. Quando eles voltaram para a sala já vinham
acompanhados do Jeremias, e sem ideia de novas brincadeiras, a Esmeralda propôs
um jogo da verdade, com uma garrafa ao centro, girada e apontada a esmo para
cada um, para o perguntador e para o perguntado. Caiu na Esmeralda a pergunta e
no Tio Astuto a resposta. Eu achei que ela trapaceou no giro da garrafa, pois
foi muita coincidência.
- Eu sou bonita?, ela
perguntou toda dengosa. Isso é lá pergunta que se faça?! Eu gelei de ouvir essa
pergunta, e dei graças a Deus de não ser comigo, mas fiquei com uma dó do meu
amigo, pois como ele ia dizer para a Esmeralda que ela era feia? Engraçadinha,
mas feia. Pois ele não se assustou, apenas ficou meio envergonhado, estávamos
todos olhando para ele, eu sabia que ele teria uma saída genial para aquilo. Pensou
um pouco para responder, enquanto era observado por nós todos, até o Jeremias
esperava curioso pela sua resposta.
- A beleza está em tudo aquilo
que não precisa ser mudado para melhorar. Então, nesse sentido, minha resposta
é sim; os olhos dele brilhavam, ele se esforçou bastante para disfarçar o seu
sim, e deu uma grande lição e olhava direto nos olhos dela, esperando ver se
ela tinha compreendido sua resposta e se tinha gostado.
- Ah! – ela suspirou com
desdém, após um longo silêncio em que ela talvez tenha buscado fortemente
dentro da sua cabeça entender aquela resposta. Em vão, pois ela não tinha tutano
para isso, não percebeu que ele a chamou de perfeição, aquilo que não precisa
ser mudado porque já é perfeito exatamente como é. Foi um grandioso elogio, foi
uma resposta tão bonita que até parecia uma poesia, só que sem rima.
Além de feia, eu a achava
também burrinha e sendo como era, foi logo fazendo a mesma pergunta ao Jeremias,
sob os nossos protestos, do Nélio e meus, pois não poderia fazer duas perguntas
seguidas. Mesmo assim esperamos todos a resposta dele que, timidamente,
balbuciou um “claro!”, deixando-a
feliz da vida. Resposta pobre, de impulso, que ele não teria coragem de dizer
nem que sim e nem que não. Ela nos abandonou e foi para a cozinha, deixando
triste o Tio Astuto que perdeu o gosto pela brincadeira. Girei a garrafa para
fazer a pergunta e a dirigi ao Jeremias, em defesa do meu amigo:
- Por que você nos levou
àquela emboscada com a dona Maruca?
