ENTENDEMOS TUDO
Fazia já dois dias que nem o Nélio e
nem a Esmeralda vinham brincar com a gente. Tio Astuto, Jeremias e eu fomos até
a casa deles para chamá-los ou saber o que estava acontecendo.
Era uma casa de pau a pique, daquelas
feitas com armação de madeira e preenchida com barro, não muito grande, que
ficava no terreno de uma dona chamada Maruca. As casas tinham a entrada pelo
mesmo portão. Diziam que a velha era uma peste, e o Nélio já tinha me dito que ela
parecia uma bruxa. Parecia mesmo. Assim que os chamamos eles apareceram na janela e nos olharam
tristes, quietos, enquanto o padrasto deles nos mandava embora. A velha
assistia a tudo da casa vizinha.
O pai do Nélio tinha morrido quando
ele ainda era um bebê e a mãe dele se casou de novo com aquele alemão gorducho,
alto, de cara vermelha chamado Fausto. Ele vivia na venda do Seu Neco tomando
umas cervejas e aí a cara dele ficava ainda mais vermelha. Tinha a cabeleira e
barba tão louras que até pareciam brancas. Justamente por isso uma vez tentaram
fazer dele um Papai Noel, mas na hora agá ele apareceu bêbado e aí não dava,
seria muita decepção um Papai Noel nesse estado.
Desde que o alemãozão tinha ficado
desempregado a mãe deles, D. Carlota, tinha que trabalhar dobrado para
sustentar toda a família trabalhando na fazenda vizinha. Ele passou a beber
mais e a brigar mais também e aí, bêbado, como podia arrumar outro emprego?.
Por isso a vovó tinha um combinado com a D. Carlota: nunca deixar os meninos
sozinhos em casa com o alemão. Claro, pois ele bebia demais e podia ficar
violento.
Ele não chamava a gente pelo nome, só
por moleque e a Esmeralda ele chamava de “moleca danada”. Sempre dizia isso, os
olhos meio vidrados, “moleca danada”. Ela dava de ombros e o deixava falando
sozinho e seguia com a gente. Naquele dia, porém, não seguiu. Ficou na janela
só olhando. É que o alemão não deixou de jeito nenhum os dois saírem de casa.
Fomos embora chateados, e os dois na
janela vendo-nos partir. Cortava o coração ver a cara triste deles. Nem
inventamos nada, fomos andando de volta quietos, e o Jeremias tomou uma
carreira largando a gente para trás. Acabamos parando no pasto da fazenda
vizinha e passamos a tarde toda vendo a peonada na lida com os touros e os
cavalos. A gente até tentou achar a D. Carlota, mas ela não estava por lá
naquela hora.
Quando chegamos em casa estava tudo
um alvoroço. Da janela da cozinha víamos o Nélio e a mãe dele chorando na mesa,
sendo consolados por minha avó e minhas tias. Estavam também o Vô Otávio e o
padre Décio, e mais o delegado Onofre, amigo de meu avô e que sempre aparecia
pelo sítio. Minha avó oferecia águas e chás e biscoitos e era um zunzum danado,
não dava para entender nada e quando nos viram ali nos mandaram embora. Demos a
volta na casa e vimos a Esmeralda no quarto, parecia que chorava.
Adultos não contam nada de importante
para as crianças, pensam que nos poupam não nos contando nada, acham que nos
protegem, mas a gente adivinha tudo. Prova disso é que juntando as pontas, umas
falas ali e outras acolá, chegamos ao
entendimento, depois de tudo e de todos. Principalmente depois de ouvirmos um
desabafo do Nélio chorando “- Não fosse a
dona Maruca...” desabando a chorar logo em seguida, para ser consolado
pelos adultos.
A gente nunca tinha visto o Nélio
chorar. Eu, pelo menos, não. Começamos a
unir as pontas pela conversa que rolava solta pela sala, cozinha, pela varanda
e em qualquer parte da casa: D.Carlota se mudaria com os filhos para a Bahia,
onde tinha parentes. Era só vender as coisas para ir em definitivo.
Definitivo era uma palavra dura. A
gente sempre se olhava ressabiado, Tio Astuto e eu, quando captava isso de
alguma conversa. Ficávamos andando como se estivéssemos distraídos, comendo um
biscoito, bebendo um refrigerante, disfarçando para não sermos notados, e aí
catávamos pedaços de conversas.
O Jeremias quando voltou na carreira
tinha vindo contar para minha avó o acontecido e ela voltou lá com ele para
buscar a Esmeralda e o Nélio, pois era o combinado. Ponto. Tio Astuto ouviu
dizer que ela esperou o cara arrumar as coisas dele e se mandar. Ouvi na
cozinha, entre as minhas tias, que a D. Carlota descobriu que ele a tinha
deixado cheia de dívidas, pois nem pagara o aluguel para a velha Maruca com o
dinheiro que ela lhe dava e fazia tempo já. Bentinho ouviu que a velha Maruca já
foi logo atirando as coisas deles para fora da casa, jogando tudo e que, por
isso, naquela noite eles dormiriam
no sítio.
Entendemos tudo: Com a chegada de
minha avó, mais o Jeremias, o cara arrumou as coisas dele e se mandou. Foi aí
que D. Carlota descobriu que ele a tinha deixado cheia de dívidas, e a velha
Maruca, vendo todo aquele alvoroço, e aproveitando que a D.Carlota tinha ficado
sozinha, mandou que ela entregasse a casa, pois não os queria mais lá nem mais
um dia! E já foi logo atirando as coisas deles para fora da casa, jogando tudo
fora e por isso eles teriam que se mudar para a Bahia.
- Deve ter sido uma tristeza passar
por tudo isso!; suspirou Tio Astuto.
- Nem me fale; concordei com ele. E
aí o Bentinho começou a chorar de repente e ficava repetindo sem parar:
- Eu não quero ficar pobre, eu tenho
medo de ficar pobre, eu tenho medo que o dinheiro da mamãe acabe...
- Cale a boca!, Tio Astuto correu a
tapar-lhe a boca - quer que eles escutem você falando isso?!; pois ele chorou
mais ainda e foi correndo contar que tinha apanhado do Tio Astuto para a tia
Adelaide, a mãe dele.
Cara chato!
