espaço de ser criança!

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terça-feira, 21 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 7



ENTENDEMOS TUDO

Fazia já dois dias que nem o Nélio e nem a Esmeralda vinham brincar com a gente. Tio Astuto, Jeremias e eu fomos até a casa deles para chamá-los ou saber o que estava acontecendo.

Era uma casa de pau a pique, daquelas feitas com armação de madeira e preenchida com barro, não muito grande, que ficava no terreno de uma dona chamada Maruca. As casas tinham a entrada pelo mesmo portão. Diziam que a velha era uma peste, e o Nélio já tinha me dito que ela parecia uma bruxa. Parecia mesmo. Assim que os chamamos  eles apareceram na janela e nos olharam tristes, quietos, enquanto o padrasto deles nos mandava embora. A velha assistia a tudo da casa vizinha.

O pai do Nélio tinha morrido quando ele ainda era um bebê e a mãe dele se casou de novo com aquele alemão gorducho, alto, de cara vermelha chamado Fausto. Ele vivia na venda do Seu Neco tomando umas cervejas e aí a cara dele ficava ainda mais vermelha. Tinha a cabeleira e barba tão louras que até pareciam brancas. Justamente por isso uma vez tentaram fazer dele um Papai Noel, mas na hora agá ele apareceu bêbado e aí não dava, seria muita decepção um Papai Noel nesse estado.

Desde que o alemãozão tinha ficado desempregado a mãe deles, D. Carlota, tinha que trabalhar dobrado para sustentar toda a família trabalhando na fazenda vizinha. Ele passou a beber mais e a brigar mais também e aí, bêbado, como podia arrumar outro emprego?. Por isso a vovó tinha um combinado com a D. Carlota: nunca deixar os meninos sozinhos em casa com o alemão. Claro, pois ele bebia demais e podia ficar violento.

Ele não chamava a gente pelo nome, só por moleque e a Esmeralda ele chamava de “moleca danada”. Sempre dizia isso, os olhos meio vidrados, “moleca danada”. Ela dava de ombros e o deixava falando sozinho e seguia com a gente. Naquele dia, porém, não seguiu. Ficou na janela só olhando. É que o alemão não deixou de jeito nenhum os dois saírem de casa.

Fomos embora chateados, e os dois na janela vendo-nos partir. Cortava o coração ver a cara triste deles. Nem inventamos nada, fomos andando de volta quietos, e o Jeremias tomou uma carreira largando a gente para trás. Acabamos parando no pasto da fazenda vizinha e passamos a tarde toda vendo a peonada na lida com os touros e os cavalos. A gente até tentou achar a D. Carlota, mas ela não estava por lá naquela hora.

Quando chegamos em casa estava tudo um alvoroço. Da janela da cozinha víamos o Nélio e a mãe dele chorando na mesa, sendo consolados por minha avó e minhas tias. Estavam também o Vô Otávio e o padre Décio, e mais o delegado Onofre, amigo de meu avô e que sempre aparecia pelo sítio. Minha avó oferecia águas e chás e biscoitos e era um zunzum danado, não dava para entender nada e quando nos viram ali nos mandaram embora. Demos a volta na casa e vimos a Esmeralda no quarto, parecia que chorava.

Adultos não contam nada de importante para as crianças, pensam que nos poupam não nos contando nada, acham que nos protegem, mas a gente adivinha tudo. Prova disso é que juntando as pontas, umas falas ali  e outras acolá, chegamos ao entendimento, depois de tudo e de todos. Principalmente depois de ouvirmos um desabafo do Nélio chorando “- Não fosse a dona Maruca...” desabando a chorar logo em seguida, para ser consolado pelos adultos.

A gente nunca tinha visto o Nélio chorar.  Eu, pelo menos, não. Começamos a unir as pontas pela conversa que rolava solta pela sala, cozinha, pela varanda e em qualquer parte da casa: D.Carlota se mudaria com os filhos para a Bahia, onde tinha parentes. Era só vender as coisas para ir em definitivo.

Definitivo era uma palavra dura. A gente sempre se olhava ressabiado, Tio Astuto e eu, quando captava isso de alguma conversa. Ficávamos andando como se estivéssemos distraídos, comendo um biscoito, bebendo um refrigerante, disfarçando para não sermos notados, e aí catávamos pedaços de conversas.

O Jeremias quando voltou na carreira tinha vindo contar para minha avó o acontecido e ela voltou lá com ele para buscar a Esmeralda e o Nélio, pois era o combinado. Ponto. Tio Astuto ouviu dizer que ela esperou o cara arrumar as coisas dele e se mandar. Ouvi na cozinha, entre as minhas tias, que a D. Carlota descobriu que ele a tinha deixado cheia de dívidas, pois nem pagara o aluguel para a velha Maruca com o dinheiro que ela lhe dava e fazia tempo já. Bentinho ouviu que a velha Maruca já foi logo atirando as coisas deles para fora da casa, jogando tudo e que, por isso, naquela noite eles dormiriam no sítio.

Entendemos tudo: Com a chegada de minha avó, mais o Jeremias, o cara arrumou as coisas dele e se mandou. Foi aí que D. Carlota descobriu que ele a tinha deixado cheia de dívidas, e a velha Maruca, vendo todo aquele alvoroço, e aproveitando que a D.Carlota tinha ficado sozinha, mandou que ela entregasse a casa, pois não os queria mais lá nem mais um dia! E já foi logo atirando as coisas deles para fora da casa, jogando tudo fora e por isso eles teriam que se mudar para a Bahia.

- Deve ter sido uma tristeza passar por tudo isso!; suspirou Tio Astuto.

- Nem me fale; concordei com ele. E aí o Bentinho começou a chorar de repente e ficava repetindo sem parar:

- Eu não quero ficar pobre, eu tenho medo de ficar pobre, eu tenho medo que o dinheiro da mamãe acabe...

- Cale a boca!, Tio Astuto correu a tapar-lhe a boca - quer que eles escutem você falando isso?!; pois ele chorou mais ainda e foi correndo contar que tinha apanhado do Tio Astuto para a tia Adelaide, a mãe dele.

Cara chato!