O TIO ASTUTO:
Eu sou o Caio, tenho dez anos e Tio
Astuto é meu primo, embora possa parecer estranho meu tio ser meu primo. É que
na verdade Tio Astuto é um menino de onze anos que já nasceu tendo um sobrinho dois
anos mais velho que ele. Por isso, pela graça e pelo costume, todos – adultos,
velhos, crianças - o chamam de tio desde bem pequeno, justamente por essa
novidade de ser tio tão novo e aí eu, como todo mundo, também passei a chamá-lo
assim.
Seu nome verdadeiro é Astolfo, herdado
do nome do pai, mas ele ganhou o apelido porque o Jeremias ainda era bem
pequeno e não conseguia falar “Astolfo”,
e aí Astolfo virou Astuto. O apelido lhe caiu bem, pois Tio Astuto é mesmo muito
astuto, ele tem sempre histórias estranhas para contar e saídas geniais para as
enrascadas em que ele se mete. Tio Astuto mora no interior, é para onde vou nas
férias, no sítio dos meus avós que “-
fica lá na virada do nada”, como fala o vô Otávio.
Em geral os meninos lá do sítio andam
mais descontraídos, descalços, com algum short surrado e sem marca de loja
nenhuma, às vezes sem camisa, “roupa de briga” como ensina a vovó. Eu não. Eu,
quando chego para as férias, trago os vícios da cidade e ando todo emprumado,
short de marca, tênis e meia, camiseta larga de alguma grife e gel nos cabelos.
Aos poucos eu me modifico, mas não
muito, tenho vergonha da minha pele tão branca em contraste com a deles, e
também porque sou gordinho. Aí abandono algumas coisas, como o gel e as roupas
combinadas, é meu jeito de entrar no esquema e andar como eles.
O Tio Astuto usa uma camisa de botões
toda aberta, e ela fica voando enquanto ele caminha, enquanto ele corre, ou
quando o vento anda atrás dele ou à sua frente enquanto ele pensa. Um dia ele subiu
sobre a jabuticabeira que fica lá no quintal da vovó, estava avistando os
cavalos no pasto e o vento rodopiava sua camisa, sacudindo sua cabeleira negra
e comprida. Ele parecia o dono do vento, dono do tempo, dono do mundo.
A nossa turma é formada pelo Nélio,
um menino negro da minha idade, que ri por tudo. Ele tem uma irmã, a Esmeralda,
que geralmente nos acompanha a pedido de minha avó para tomar conta da gente.
Ela é pouco mais alta que o Jeremias e, portanto, que nós todos, tem os olhos
verdes e amendoados, a pele marrom e uma cabeleira longa, toda cacheada que às
vezes exala um cheiro bom de flor de campo. Usa uns vestidos floridos, meio
curtos, e anda descalça no meio da gente. É agitada e atrapalhada, por tudo se
assusta dando gritos, por qualquer coisa também ela ri, como o Nélio.
Tem também o Bentinho, irmão mais
novo do Jeremias, magrinho e manhoso, que consegue as coisas berrando e
chorando para chamar a atenção dos adultos e aí ser atendido. Ele nos chateia
para andar com a gente, ou apronta um berreiro para os adultos nos imporem sua
presença. Por isso, na maioria das vezes, a gente escapole de mansinho e
deixa-o para trás.
Tio Astuto implica sempre com o
Jeremias, o seu sobrinho de treze anos, e diz que é porque ele adora ficar
dormindo. Para ele o sobrinho é um morto que come e fala, mas eu já vi, ele
anda também, à noite, ”quando a vida dos
outros está apagada”, ele diz. Só se for lá no sítio, que na cidade grande
não é assim não, toda hora é toda hora. Acho que o Jeremias gosta é de olhar as
estrelas, porque o céu do sítio parece “farinha
espalhada no chão”. É como diz o Tio Astuto, e eu concordo!
Naquele dia, como combinado, chegamos
para nossa primeira aventura, uma corrida de tartarugas. Tio Astuto levou
“Sinhão”, que é o nome da tartaruga dele. Havia também a do Jeremias, Dodô, que
na verdade pertencia ao Bentinho, por isso ele teve de ir junto, e a Sentinela,
a tartaruga do Nélio.
Enquanto as tartarugas decidiam se
corriam ou não, indo lentas para lá e para cá fora da raia, cada um ajeitava a
sua, olhava a do outro, dava risadas e trocava xingamentos, e uns tapinhas nos
costados das tartarugas para elas andarem reto. Eu, secretamente, torcia por
Sinhão, porque era tudo ou nada na cara preocupada do Tio Astuto. O Bentinho
ofendia as tartarugas e junto com elas o dono, esquecendo-se de que a ele
pertencia Dodô. As ofensas deixavam o Tio Astuto ainda mais irritado com o
desempenho fraco de Sinhão.
Teve uma hora que elas empacaram de
vez puxando as cabeças para dentro do casco e não houve outra saída senão parar
e esperar. Jeremias se encolheu sob a árvore, e meio dormia, meio dava palpite
nas coisas, enquanto o Nélio só dava risada, apertando a barriga de tanto rir.
É que o Tio Astuto ficava berrando o
nome das tartarugas dentro de cada carcaça para elas saírem e nada, e o Nélio
morria de rir disso. Eu também, de vê-los assim: Nélio morrendo de dar risada,
o Tio Astuto sério berrando o nome das coitadas e as tartarugas, que não iam
sair mesmo enquanto estivesse aquela algazarra. Por fim decidimos esperar, sob
a árvore, enquanto aumentava o sol e a manhã.
Para espantar a paradeira o meu primo-tio sacou de uma
história que eu achei tão bonita!
De onde ele tira essas histórias?!
