espaço de ser criança!

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

MINHAS FÉRIAS COM TIO ASTUTO - CAPITULO 1



O TIO ASTUTO:


Eu sou o Caio, tenho dez anos e Tio Astuto é meu primo, embora possa parecer estranho meu tio ser meu primo. É que na verdade Tio Astuto é um menino de onze anos que já nasceu tendo um sobrinho dois anos mais velho que ele. Por isso, pela graça e pelo costume, todos – adultos, velhos, crianças - o chamam de tio desde bem pequeno, justamente por essa novidade de ser tio tão novo e aí eu, como todo mundo, também passei a chamá-lo assim.

Seu nome verdadeiro é Astolfo, herdado do nome do pai, mas ele ganhou o apelido porque o Jeremias ainda era bem pequeno e  não conseguia falar “Astolfo”, e aí Astolfo virou Astuto. O apelido lhe caiu bem, pois Tio Astuto é mesmo muito astuto, ele tem sempre histórias estranhas para contar e saídas geniais para as enrascadas em que ele se mete. Tio Astuto mora no interior, é para onde vou nas férias, no sítio dos meus avós que “- fica lá na virada do nada”, como fala o vô Otávio.

Em geral os meninos lá do sítio andam mais descontraídos, descalços, com algum short surrado e sem marca de loja nenhuma, às vezes sem camisa, “roupa de briga” como ensina a vovó. Eu não. Eu, quando chego para as férias, trago os vícios da cidade e ando todo emprumado, short de marca, tênis e meia, camiseta larga de alguma grife e gel nos cabelos.

Aos poucos eu me modifico, mas não muito, tenho vergonha da minha pele tão branca em contraste com a deles, e também porque sou gordinho. Aí abandono algumas coisas, como o gel e as roupas combinadas, é meu jeito de entrar no esquema e andar como eles.

O Tio Astuto usa uma camisa de botões toda aberta, e ela fica voando enquanto ele caminha, enquanto ele corre, ou quando o vento anda atrás dele ou à sua frente enquanto ele pensa. Um dia ele subiu sobre a jabuticabeira que fica lá no quintal da vovó, estava avistando os cavalos no pasto e o vento rodopiava sua camisa, sacudindo sua cabeleira negra e comprida. Ele parecia o dono do vento, dono do tempo, dono do mundo.

A nossa turma é formada pelo Nélio, um menino negro da minha idade, que ri por tudo. Ele tem uma irmã, a Esmeralda, que geralmente nos acompanha a pedido de minha avó para tomar conta da gente. Ela é pouco mais alta que o Jeremias e, portanto, que nós todos, tem os olhos verdes e amendoados, a pele marrom e uma cabeleira longa, toda cacheada que às vezes exala um cheiro bom de flor de campo. Usa uns vestidos floridos, meio curtos, e anda descalça no meio da gente. É agitada e atrapalhada, por tudo se assusta dando gritos, por qualquer coisa também ela ri, como o Nélio.

Tem também o Bentinho, irmão mais novo do Jeremias, magrinho e manhoso, que consegue as coisas berrando e chorando para chamar a atenção dos adultos e aí ser atendido. Ele nos chateia para andar com a gente, ou apronta um berreiro para os adultos nos imporem sua presença. Por isso, na maioria das vezes, a gente escapole de mansinho e deixa-o para trás.

Tio Astuto implica sempre com o Jeremias, o seu sobrinho de treze anos, e diz que é porque ele adora ficar dormindo. Para ele o sobrinho é um morto que come e fala, mas eu já vi, ele anda também, à noite, ”quando a vida dos outros está apagada”, ele diz. Só se for lá no sítio, que na cidade grande não é assim não, toda hora é toda hora. Acho que o Jeremias gosta é de olhar as estrelas, porque o céu do sítio parece “farinha espalhada no chão”. É como diz o Tio Astuto, e eu concordo!

Naquele dia, como combinado, chegamos para nossa primeira aventura, uma corrida de tartarugas. Tio Astuto levou “Sinhão”, que é o nome da tartaruga dele. Havia também a do Jeremias, Dodô, que na verdade pertencia ao Bentinho, por isso ele teve de ir junto, e a Sentinela, a tartaruga do Nélio.

Enquanto as tartarugas decidiam se corriam ou não, indo lentas para lá e para cá fora da raia, cada um ajeitava a sua, olhava a do outro, dava risadas e trocava xingamentos, e uns tapinhas nos costados das tartarugas para elas andarem reto. Eu, secretamente, torcia por Sinhão, porque era tudo ou nada na cara preocupada do Tio Astuto. O Bentinho ofendia as tartarugas e junto com elas o dono, esquecendo-se de que a ele pertencia Dodô. As ofensas deixavam o Tio Astuto ainda mais irritado com o desempenho fraco de Sinhão.

Teve uma hora que elas empacaram de vez puxando as cabeças para dentro do casco e não houve outra saída senão parar e esperar. Jeremias se encolheu sob a árvore, e meio dormia, meio dava palpite nas coisas, enquanto o Nélio só dava risada, apertando a barriga de tanto rir. 

É que o Tio Astuto ficava berrando o nome das tartarugas dentro de cada carcaça para elas saírem e nada, e o Nélio morria de rir disso. Eu também, de vê-los assim: Nélio morrendo de dar risada, o Tio Astuto sério berrando o nome das coitadas e as tartarugas, que não iam sair mesmo enquanto estivesse aquela algazarra. Por fim decidimos esperar, sob a árvore, enquanto aumentava o sol e a manhã. 

Para espantar a  paradeira o meu primo-tio sacou de uma história que eu achei tão bonita!

De onde ele tira essas histórias?!