O LAÇO DE FITA NO PORÃO
Acho que a beleza está
ligada ao desejo de perfeição, como disse o Tio Astuto, mas também ao
conhecimento que a pessoa tem. Para mim Esmeralda era feia, para ele era a
perfeição. Para mim a beleza suprema pertencia à menina do salão. Ela tinha uma
beleza parecida com a das meninas que eu conhecia na escola, que eu via nos
shoppings, só que era ainda mais bonita. Ele, no entanto, sequer tinha reparado
na minha princesa. Se para ele a perfeição era algo que em nada deveria ser
mudado, como ele podia aceitar como belas as brincadeiras da Esmeralda com os
sentimentos dele e do Jeremias? Ela aceitar as injustiças que o sobrinho
cometia contra ele? Será que existe mesmo a beleza quando uma pessoa passa a
vida toda achando uma única coisa bela e nunca muda de opinião?
O Jeremias se safou bem da minha
pergunta, pois a tia Adelaide surgiu alvoroçada na sala e ordenou-lhe brincar
um pouco com o Bentinho, pois estava aflita com a visita que receberia à tarde.
Ele fugiu de bom grado, carregando o irmão nos ombros e ganhando um beijo da
mãe. O Nélio me achou corajoso pela pergunta e o Tio Astuto olhava a chuva da
janela, vontade de sair por certo. Sem ter o que fazer, nós fomos ver tia Ruth
fazendo roupas para as suas bonecas de pano e vendo como ela e Esmeralda
brincavam, juro, deu uma vontade de brincar também, mas isso não é coisa para
menino, certo? Errado, pois depois vieram o Jeremias e o Bentinho e nós todos
ajudamos a ir fazendo roupas e cabelos para as bonecas de pano, e olhos também.
Foi muito legal, e a gente continuou sendo menino mesmo tendo brincado com
bonecas.
. Depois, a gente almoçou como
sempre, a sexta se esticando, sabe-se lá quando chegaria a quarta, quando
acabaria a chuva? A vovó ajudava tia Adelaide num bolo enfeitado que
presentearia a uma certa dona Vânia Laeris que, se a chuva deixasse, viria para
um lanche à tarde. Tio Astuto, assim que almoçou, sumiu e foi tão ligeiro que,
acho, não queria mesmo a nossa companhia, queria amargar lá a amargura dele,
pois talvez o amor dele fosse tão platônico quanto o meu.
O Nélio e eu planejávamos como pegar
o sobrinho de jeito, cobrar dele uma explicação e uma compostura, pois ainda
estávamos zangados com ele. Ética, eu aprendi na escola, e expliquei para o
Nélio, é uma palavra que vem do grego e significa um sentimento que nasce com a
gente do que é certo e do que é errado, é algo como não trair a confiança. Acontece
que, para mim, “o sobrinho” não tinha
sido ético conosco, porém ele fugia com Bentinho e estava difícil de pegá-lo.
Estávamos na varanda, banho tomado,
prontinhos, tudo por ordem da tia
Adelaide, até o Tio Astuto, que mesmo com as ameaças da titia não tirou sua
camisa, apenas fez o favor de abotoá-la. Jeremias e Bentinho jogavam bolinha de
gude e, embora quiséssemos fingir que não dávamos bola para eles, o fato é que
o jogo chamava a nossa atenção. Ficamos lá, um olho no jogo, outro no arco-íris
no céu, depois no carro do vovô saindo porteira afora, e de novo no jogo. Vô
Otávio voltou meia hora depois trazendo a tão esperada Vânia Laeris e sua
filha.
Meu coração disparou. Vânia Laeris
era a dona do “Salão de Beleza Interior”
e com ela vinha sua filha Etelvina, como vim a saber, a minha bela Etelvina. E
bem quando elas chegaram estávamos todos ajoelhados no chão batendo nossas
bolinhas de gude. Isto foi humilhante e agora eu entendia um pouco o Jeremias.
Quando a gente quer parecer grande, não gosta de ficar perto dos pequenos, pois
isso nos torna crianças igual a eles. E a Etelvina foi chegar justo quando
estávamos todos ajoelhados jogando bolinha com o Bentinho. Levantamo-nos e
fomos cumprimentando a senhora conforme tia Adelaide nos ia indicando, porém,
logo em seguida às apresentações o Bentinho ia nos puxando, fazendo manha,
querendo que voltássemos para o jogo. Que raiva do Bentinho!
A tal de Vânia Laeris era uma mulher
bonita, com uma roupa agarrada no corpo desenhando as suas curvas. Parecia
desenho. Era maquiada também e mantinha a sua filha impecável. A bela Etelvina
tinha as roupas bem bonitas, rendadas, meias e sapatos, laço de fita no cabelo.
Às vezes o laço ia escorrendo pelo seu liso cabelo de mel e a mãe logo se
aproximava para o arrumar. Ela era gentil e educada, e gostavam de contar as
coisas da cidade. Vinham de São Paulo como eu.
Na hora do lanche, estávamos todos à
mesa, e já bem orientados pela tia Adelaide: nada de cotovelos na mesa, nada de
ficar comendo antes da visita, nada de comer demais atacando os pratos, usar o
guardanapo, comer de boca fechada, não segurar a cabeça enquanto mastiga. E
especialmente para o Bentinho, se fizesse alguma reclamação ou manha ficaria de
castigo dois dias no quarto. Ele arregalou os olhos quando ouviu aquilo.
Difícil seria conter tia Ruth. Tia Ruth, ainda não falei, é a irmã mais nova da
vovó e que vive lá no sítio morando com eles. Ela nunca se casou, e tem a mania
de se servir antes de todos da casa, nunca se senta à mesa, pois gosta de ficar
mesmo é lá no quarto costurando roupinhas para as suas bonecas. Mesmo quando era
festa ou algo assim, sempre se servia antes cortando um bolo, um pudim, uma
arrumação bonita da comida deixando a vovó uma fera e tia Adelaide mais ainda.
Naquele dia elas esconderam o bolo até a chegada da visita.
Só a dona Vânia falava. Ela falava
sem parar, ria, elogiando a todos sem distinção, sem conhecer ninguém, sendo
agradável exageradamente. Era o jeito dela de ser educada. Não dava chance de
ninguém falar nada, e então a ouvíamos quietos, querendo rir, mas nos
segurando, ouvindo, e a Etelvina às vezes sorrindo para mim, ou para os outros.
Foi aí que descobrimos que o “Salão de Beleza Interior” ganhou esse nome porque
ela saiu de São Paulo e veio para o interior do Estado, entendeu? Salão de
Beleza Interior.
Ao ouvir isso olhei para o Tio Astuto
– a gente tinha confabulado tanta coisa para esse nome: se seriam terapias
chinesas, ioga, alguma arte oriental – e ele soltou um riso que já andava preso
há muito tempo, espirrando bebida na minha cara. O Jeremias, Nélio e Esmeralda soltaram
uma gargalhada ao verem minha cara toda molhada e o Bentinho começou a fazer manha por mais
quantidades de bolo, de pão de queijo, de pães, uma confusão. Até o vovô
segurava uma risada por baixo de seu bigode branco. Tia Adelaide olhava de todo
jeito para eles – torto, fazendo careta, brava - mas ninguém mais os segurava.
Eu me continha, a bela Etelvina me olhava pedindo amparo e eu dividido entre a
graça deles, minha cara cheia de refrigerante cuspido e o amor da minha musa.
A partir daí, se Etelvina tinha tentado ser educada com todos, passou a
conversar apenas comigo e falamos sobre as coisas da cidade, os shoppings, os
filmes, as lanchonetes, as bandas e shows. Bem que fiquei feliz com isso, mas
os outros, vendo-se excluídos, foram brincar no quintal e eu fiquei na varanda,
sentado ao lado dela, vendo o jogo de cobra cega e os gritos risonhos e
espalhafatosos da Esmeralda com os demais.
Tia Adelaide me pediu para ir buscar
uma caixa branca no porão para colocar o
bolo que tinha feito para a dona Vânia, e vendo a brincadeira daqueles “trogloditas”, como ela disse, sorriu
para Etelvina sugerindo que me
acompanhasse para que não ficasse sozinha no alpendre e nem fosse se sujar na
brincadeira enlameada dos outros. Ela deu todas as instruções de onde estava a
caixa, mas eu mal a ouvia, meu coração palpitava, pulava forte, minha boca
ficou seca de tanta emoção.
Descemos o alpendre e demos a volta
na casa para alcançar o porão. Ela me seguia pisando delicadamente no chão,
escolhendo atalhos para não sujar o sapato no barro provocado pela chuva. Havia
uma escada íngreme para chegar ao porão e Etelvina, receosa, agarrou a minha
mão.
- Tenho medo.
Eu lhe sorri, como faria o Tio Astuto
e segurei a sua mão, conduzindo-a pelo caminho.
Minha mão suava um pouco e isso me incomodava, tinha medo do que ela
podia pensar e até tentei largar da mão dela, mas ela se agarrava fortemente à
minha. Deixei e segui , abrindo a porta, acendendo a luz e indo procurar na
prateleira indicada. Acho que eu imitava os gestos do meu pai tentando ser
adulto, sabendo que era observado por ela.
Havia caixas brancas de variados
tamanhos e me vi embasbacado sobre qual escolher. Qual era o tamanho desse
bolo?! Ela achou engraçado e brincamos
um pouco sobre os tamanhos das caixas e dos bolos. Peguei a média que encontrei
e subíamos a escada já quando ela deu pela falta da fita do seu cabelo. Retornamos
ao porão e nem foi preciso acender a luz, a fita amarela brilhava no chão com o
reflexo da claridade da porta aberta. Apanhei o laço do chão e entreguei-lhe.
Ela amarrou-o de volta aos cabelos olhando fixo para mim, deixando-me um pouco
encabulado. Depois me agradeceu tomando a caixa de minha mão ao mesmo tempo em
que me dava um beijo na boca e saía correndo.
Fiquei estático: era meu primeiro
beijo!
