espaço de ser criança!

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 2



A HISTÓRIA DO TIO ASTUTO


José e Jacó eram dois companheiros de brincadeiras, e brincavam muito, conforme a imaginatividade, disposição e resistência que eles tinham. Imaginatividade? Achei estranha aquela palavra e vi na cara de todo mundo uma interrogação, mas nenhuma coragem de interromper. Acho que ele percebeu e foi logo emendando. Imaginatividade é mais que imaginação, é a capacidade de ser imaginativo, de criar mais imaginação. Acho que todos fizemos uma cara de “ah, entendi”.

Pois então, estavam os dois mais eufóricos naquela manhã, ou porque o sol brilhasse mais acordando um dia alegre, ou porque a brisa era amena e dos campos exalava um aroma doce das azaleias distantes, ou porque as férias estivessem no fim, o fato é que estavam. Desta forma, brincavam sem parar, aproveitando ao máximo cada brincadeira. Jacó era mais velho quatro anos que José e, portanto, mais esperto, mais malicioso nas propostas das brincadeiras. Enquanto falava assim, Tio Astuto pesquisava em nós o interesse pela história e o efeito desse suspense. Tínhamos os olhos arregalados, menos o Jeremias, claro, que ele dormia sob a árvore mais à distância. Tio Astuto deu uma olhada nele antes de continuar sua história.

Começou como uma artimanha inocente colocar o outro em exagerada desvantagem, porém a coisa foi tomando proporções fora de seu controle.  Primeiro foi o futebol. O campo era íngreme, torto mesmo, desses campos de várzea irregulares, igual àquele perto do pasto – nós todos balançamos a cabeça, sabíamos como era torto aquele campo - e Jacó resolveu que o gol de José ficaria na parte alta do campo.  Ou seja, enquanto ele, Jacó, tinha a seu favor o campo, a descida, a força de gravidade e sua própria idade, José teria que subir tocando a bola, desviar-se dele, desviar-se dos morros, e ter ótima pontaria para acertar o gol contra a gigante figura de seu adversário.

José não se incomodava, inocentemente ria e achava graça imensa em ter que puxar de si uma força maior que ele próprio, descobrir em si uma destreza, uma perícia, esforçar-se vencendo qualquer fraqueza de seu corpo. O desafio dava a José um gosto bom, uma vontade boa de superar seus limites. Era concentrado nisso que corria, que subia, fazendo rolar a bola ladeira acima, desviando de tudo, até acertar na trave, chutar para fora, acertar o gol, acertar de novo, acertar mais uma vez.

José ficava agradecido ao amigo Jacó por lhe dar essa tal consideração, de não o poupar como o faziam os demais porque ele era mais novinho, de comandá-lo de igual pra igual. Não se dava o mesmo em Jacó. Nesse primeiro desafio, perdendo de três a um para o menino, terminou a partida carregando a bola e um gosto amargo na saliva, um aperto na bola apertada contra o peito, enquanto José o seguia, contando-lhe, como a esperar a aprovação de um mestre, do raciocínio que desenvolvia para cada jogada que fazia. Jacó ouvia-o quieto, dividido entre a admiração e amizade sincera pelo menino, e um nó apertado por dentro que até então não conhecia, pelo menos não assim inteiramente exposto.

Passaram ao lado do hipódromo. “Não sei cavalgar muito bem”, disse José ao amigo, e Jacó teve uma ideia sinistra e guardou-a quieta consigo, onde nem ele mesmo gostava muito de ouvir. Abanou a cabeça para espantá-la e foi para outra brincadeira. Seguiram e foram brincar de nadar no rio, pulando do alto do cipoal. Jacó pulou de altura mediana, José um pouco mais baixo. Vendo, porém, que os mergulhos do amigo pareciam mais aventureiros e mais gostosos, tentou subir mais acima, e pulou de sua altura, criando coragem, respirando fundo, tremendo. Se algo desse errado o amigo o salvaria, e fechando os olhos pulou. Pulou de novo de olhos abertos, e tantas vezes, que achou melhor subir ainda mais acima. Subiu, subiu bem alto, muito lá em cima, entortando a cabeça de Jacó para observá-lo e pulou dando uma cambalhota.

Jacó sorriu, temperando o riso com a visão graciosa do menino e a dor do corte profundo em seu orgulho, pois não havia nele aquela disposição de escalar mais alto que seu medo. Sua coragem era feita de coisas habituais e de limites, com nós apertados em torno da garganta seca, da vista escura, do medo na máxima potência. Eu sabia bem o que era isso, pensei ao ouvi-lo..

Após o almoço, quando se reencontraram, Jacó trazia uma mochila de pano atravessada no peito e tirou dela um estilingue. Brincaram de derrubar lata, Jacó exibindo sua excelente pontaria. De tanto treinar, José também acertou a sua e achou que deveriam buscar alvos mais inatingíveis. A distância equiparou suas habilidades, acertaram e erraram com igual maestria.

Depois disso, deitaram-se na várzea, olhando desenhos nas nuvens. José contava das coisas da escola, de brigas com outros meninos, o castigo da professora, a advertência do diretor, a suspensão, e chegando em casa o castigo de seu pai. Riu com graça contando que voltando para a escola fez tudo outra vez, só que não aprontou na escola, mas na rua, esperando pelos colegas na saída.  Desta vez, olhou agradecido para o amigo, levaria consigo o estilingue. Jacó ouvia-o quieto, às vezes ria de alguma tolice, e José ficava extasiado de conseguir fazer graça para o seu melhor amigo. Este momento acabou de vez com as diferenças e apagou em Jacó as inquietações dos outros perigos.

Durou pouco, que passando junto ao prado, José repetiu que não sabia cavalgar. Num impulso mais forte Jacó o convidou para uma cavalgada. A ideia lhe vinha boa pela brincadeira, mas ela falava com uma voz estranha por dentro, e ele até chegava a duvidar do divertimento. Tentou resistir ao chamado, no entanto esse impulso era como uma coceira, uma comichão.  O menino concordou aflito. A sua emoção era espumante, o medo era a última coisa das euforias todas que o preencheram, e foi correndo atrás do amigo para pegar os cavalos.

Montaram e seguiram para o hipódromo, José sabendo pouco como montar, como se manter ereto no animal, como dominá-lo. Ia calmo seguindo as instruções do amigo. Foram trotando alegres enquanto era suave a brincadeira, o outro com destreza apontando lugares que se via do alto. Jacó galopou mais forte, acelerando um pouco mais o passo. José acompanhou-o. Acelerou mais, e o menino o seguia. Disparou na corrida, sendo seguido logo atrás pela gargalhada espalhada de José, esforçando-se por alcançá-lo.  Jacó saiu gritando também, rindo, vendo-o lá atrás, seguindo assim uma volta inteira. Parou no ponto de partida esperando José que vinha mais ao longe. Quando o alcançou o garoto estava meio sem fôlego, as bochechas vermelhas, riso largo na cara, brilho demais nos olhos, eufórico contando de toda a sua delícia. Podiam ter parado por aí.

- Vamos apostar uma corrida?, perguntou Jacó, repetindo os comandos daquela voz interna que ele agora reconhecia. Foram. E assim, correndo velozes, por uma cabeça, Jacó conheceu em definitivo a superioridade de José sobre todos os atributos do seu medo. Essa seria uma sentença para toda a vida, que Jacó não mudou esse destino, pois assim foi com o amor, que ele quase conquistou, até na morte, durante o velório, houve uma confusão de defuntos e as preces, as homenagens e as flores seguiram primeiro um defunto errado para depois serem alojadas ao seu verdadeiro dono, mas já usadas, desemocionadas, mais apressadas, porque a chuva também caía.

Todo mundo ficou calado depois de ouvir essa história, e até o céu ficou desalinhado, como disse o Nélio. Eu não sei de onde ele tirou aquela história, ele não conta nunca de onde as tira, voltando delas em transe, estranho, sério, a cara meio transfigurada.

Assistimos silenciosos à corrida de tartarugas. Sinhão foi seguindo mais reto na raia improvisada do quintal, entretanto se distraiu no final do caminho e a tartaruga do Jeremias a ultrapassou vencendo a corrida. Tartaruga do Bentinho, que ficou gritando e gozando da cara de todo mundo, fazendo o maior estardalhaço pela sua vitória. Tio Astuto agarrou sua tartaruga e foi-se embora apressado, sem se despedir de ninguém, e eu fui andando rápido ao seu lado. A gente seguiu o caminho todo em silêncio.

Não é que ele ficou mesmo chateado com a corrida das tartarugas? Acho que Sinhão não era tão astuta quanto ele!