A HISTÓRIA DO TIO ASTUTO
José e Jacó eram dois companheiros de
brincadeiras, e brincavam muito, conforme a imaginatividade, disposição e
resistência que eles tinham. Imaginatividade? Achei estranha aquela palavra e
vi na cara de todo mundo uma interrogação, mas nenhuma coragem de interromper.
Acho que ele percebeu e foi logo emendando. Imaginatividade é mais que
imaginação, é a capacidade de ser imaginativo, de criar mais imaginação. Acho
que todos fizemos uma cara de “ah,
entendi”.
Pois então, estavam os dois mais
eufóricos naquela manhã, ou porque o sol brilhasse mais acordando um dia
alegre, ou porque a brisa era amena e dos campos exalava um aroma doce das azaleias
distantes, ou porque as férias estivessem no fim, o fato é que estavam. Desta
forma, brincavam sem parar, aproveitando ao máximo cada brincadeira. Jacó era
mais velho quatro anos que José e, portanto, mais esperto, mais malicioso nas
propostas das brincadeiras. Enquanto falava assim, Tio Astuto pesquisava em nós
o interesse pela história e o efeito desse suspense. Tínhamos os olhos
arregalados, menos o Jeremias, claro, que ele dormia sob a árvore mais à
distância. Tio Astuto deu uma olhada nele antes de continuar sua história.
Começou como uma artimanha inocente
colocar o outro em exagerada desvantagem, porém a coisa foi tomando proporções
fora de seu controle. Primeiro foi o
futebol. O campo era íngreme, torto mesmo, desses campos de várzea irregulares,
igual àquele perto do pasto – nós todos balançamos a cabeça, sabíamos como era
torto aquele campo - e Jacó resolveu que o gol de José ficaria na parte alta do
campo. Ou seja, enquanto ele, Jacó,
tinha a seu favor o campo, a descida, a força de gravidade e sua própria idade,
José teria que subir tocando a bola, desviar-se dele, desviar-se dos morros, e
ter ótima pontaria para acertar o gol contra a gigante figura de seu
adversário.
José não se incomodava, inocentemente
ria e achava graça imensa em ter que puxar de si uma força maior que ele
próprio, descobrir em si uma destreza, uma perícia, esforçar-se vencendo
qualquer fraqueza de seu corpo. O desafio dava a José um gosto bom, uma vontade
boa de superar seus limites. Era concentrado nisso que corria, que subia,
fazendo rolar a bola ladeira acima, desviando de tudo, até acertar na trave, chutar
para fora, acertar o gol, acertar de novo, acertar mais uma vez.
José ficava agradecido ao amigo Jacó
por lhe dar essa tal consideração, de não o poupar como o faziam os demais
porque ele era mais novinho, de comandá-lo de igual pra igual. Não se dava o
mesmo em Jacó. Nesse primeiro desafio, perdendo de três a um para o menino,
terminou a partida carregando a bola e um gosto amargo na saliva, um aperto na
bola apertada contra o peito, enquanto José o seguia, contando-lhe, como a
esperar a aprovação de um mestre, do raciocínio que desenvolvia para cada jogada
que fazia. Jacó ouvia-o quieto, dividido entre a admiração e amizade sincera
pelo menino, e um nó apertado por dentro que até então não conhecia, pelo menos
não assim inteiramente exposto.
Passaram ao lado do hipódromo. “Não sei cavalgar muito bem”, disse José
ao amigo, e Jacó teve uma ideia sinistra e guardou-a quieta consigo, onde nem
ele mesmo gostava muito de ouvir. Abanou a cabeça para espantá-la e foi para
outra brincadeira. Seguiram e foram brincar de nadar no rio, pulando do alto do
cipoal. Jacó pulou de altura mediana, José um pouco mais baixo. Vendo, porém,
que os mergulhos do amigo pareciam mais aventureiros e mais gostosos, tentou
subir mais acima, e pulou de sua altura, criando coragem, respirando fundo,
tremendo. Se algo desse errado o amigo o salvaria, e fechando os olhos pulou.
Pulou de novo de olhos abertos, e tantas vezes, que achou melhor subir ainda
mais acima. Subiu, subiu bem alto, muito lá em cima, entortando a cabeça de
Jacó para observá-lo e pulou dando uma cambalhota.
Jacó sorriu, temperando o riso com a
visão graciosa do menino e a dor do corte profundo em seu orgulho, pois não
havia nele aquela disposição de escalar mais alto que seu medo. Sua coragem era
feita de coisas habituais e de limites, com nós apertados em torno da garganta
seca, da vista escura, do medo na máxima potência. Eu sabia bem o que era isso,
pensei ao ouvi-lo..
Após o almoço, quando se
reencontraram, Jacó trazia uma mochila de pano atravessada no peito e tirou
dela um estilingue. Brincaram de derrubar lata, Jacó exibindo sua excelente
pontaria. De tanto treinar, José também acertou a sua e achou que deveriam
buscar alvos mais inatingíveis. A distância equiparou suas habilidades,
acertaram e erraram com igual maestria.
Depois disso, deitaram-se na várzea,
olhando desenhos nas nuvens. José contava das coisas da escola, de brigas com
outros meninos, o castigo da professora, a advertência do diretor, a suspensão,
e chegando em casa o castigo de seu pai. Riu com graça contando que voltando
para a escola fez tudo outra vez, só que não aprontou na escola, mas na rua,
esperando pelos colegas na saída. Desta
vez, olhou agradecido para o amigo, levaria consigo o estilingue. Jacó ouvia-o
quieto, às vezes ria de alguma tolice, e José ficava extasiado de conseguir
fazer graça para o seu melhor amigo. Este momento acabou de vez com as
diferenças e apagou em Jacó as inquietações dos outros perigos.
Durou pouco, que passando junto ao
prado, José repetiu que não sabia cavalgar. Num impulso mais forte Jacó o
convidou para uma cavalgada. A ideia lhe vinha boa pela brincadeira, mas ela
falava com uma voz estranha por dentro, e ele até chegava a duvidar do
divertimento. Tentou resistir ao chamado, no entanto esse impulso era como uma
coceira, uma comichão. O menino
concordou aflito. A sua emoção era espumante, o medo era a última coisa das
euforias todas que o preencheram, e foi correndo atrás do amigo para pegar os
cavalos.
Montaram e seguiram para o hipódromo,
José sabendo pouco como montar, como se manter ereto no animal, como dominá-lo.
Ia calmo seguindo as instruções do amigo. Foram trotando alegres enquanto era
suave a brincadeira, o outro com destreza apontando lugares que se via do alto.
Jacó galopou mais forte, acelerando um pouco mais o passo. José acompanhou-o.
Acelerou mais, e o menino o seguia. Disparou na corrida, sendo seguido logo
atrás pela gargalhada espalhada de José, esforçando-se por alcançá-lo. Jacó saiu gritando também, rindo, vendo-o lá
atrás, seguindo assim uma volta inteira. Parou no ponto de partida esperando
José que vinha mais ao longe. Quando o alcançou o garoto estava meio sem
fôlego, as bochechas vermelhas, riso largo na cara, brilho demais nos olhos,
eufórico contando de toda a sua delícia. Podiam ter parado por aí.
- Vamos apostar uma corrida?, perguntou Jacó, repetindo os comandos daquela voz interna que
ele agora reconhecia. Foram. E assim, correndo velozes, por uma cabeça, Jacó conheceu em definitivo
a superioridade de José sobre todos os atributos do seu medo. Essa seria uma sentença para toda a
vida, que Jacó não mudou esse destino, pois assim foi com o amor, que ele quase
conquistou, até na morte, durante o velório, houve uma confusão de defuntos e
as preces, as homenagens e as flores seguiram primeiro um defunto errado para
depois serem alojadas ao seu verdadeiro dono, mas já usadas, desemocionadas,
mais apressadas, porque a chuva também caía.
Todo mundo ficou calado depois de
ouvir essa história, e até o céu ficou desalinhado, como disse o Nélio. Eu não
sei de onde ele tirou aquela história, ele não conta nunca de onde as tira,
voltando delas em transe, estranho, sério, a cara meio transfigurada.
Assistimos silenciosos à corrida de
tartarugas. Sinhão foi seguindo mais reto na raia improvisada do quintal, entretanto
se distraiu no final do caminho e a tartaruga do Jeremias a ultrapassou
vencendo a corrida. Tartaruga do Bentinho, que ficou gritando e gozando da cara
de todo mundo, fazendo o maior estardalhaço pela sua vitória. Tio Astuto agarrou
sua tartaruga e foi-se embora apressado, sem se despedir de ninguém, e eu fui
andando rápido ao seu lado. A gente seguiu o caminho todo em silêncio.
Não é que ele ficou mesmo chateado
com a corrida das tartarugas? Acho que Sinhão não era tão astuta quanto ele!
