espaço de ser criança!

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terça-feira, 21 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 8





A VELHA MARUCA

Dava uma dor no coração imaginar que o Nélio não acompanharia mais as nossas brincadeiras! Sentia falta até das atrapalhadas da Esmeralda, da sua presença com a gente. Tio Astuto estava triste de dar pena. Se eu, que só vinha nas férias, sentia isso, imagine ele que convivia com eles quase todos os dias!

Acho que ninguém conseguia dormir. O Jeremias ficou lá na pedra dele, olhando as estrelas, e era com tanto fervor que o fazia que eu tive a impressão de que ele rezava aos céus lá do jeito dele. A Esmeralda e o Nélio ficaram abraçados no quarto, fazendo companhia para a sua mãe. De repente ouvi uma pancada leve na minha janela. Levantei-me e vi o Tio Astuto me chamando. Pulei a janela devagar, pois passar pela sala era passar por minha avó e meu avô ainda acordados.

Segui-o noite adentro, ele ia com passos tão firmes, parecia saber o que ia fazer. Carregava um lençol branco enrolado debaixo do braço e uma folha de alumínio. Andava tão ligeiro e eu com medo do mato, da noite, de cobras, de grilos, mas confiava nele comigo. Fiquei com medo também do meu gigante aparecer.

Fez-se um estalo atrás de nós. Meu coração batia acelerado e nessa hora achei que ia explodir. As folhas começaram a farfalhar e eu fui sentindo um hálito soprado de entre as folhagens. Era o gigante, era o gigante! Eu tremia tanto! Voltamo-nos e, aí, que alívio, vimos o Jeremias que nos seguia.

- Aonde vocês vão?

- Dar um susto na velha. Quero ver se ela muda ou não de ideia; disse o Tio Astuto resoluto.

- Eu também vou com vocês! - eles se olharam silenciosamente, um olhar que eu não entendi e nós seguimos até a casa da velha. Sei lá, vendo os dois assim unidos numa mesma causa meu medo foi diminuindo.

Eu já a tinha visto de outras vezes. Ficava sempre espiando o que a gente estava fazendo, e de tanto o Nélio falar, eu achava mesmo que era uma bruxa resmungona reclamando do mundo, amontoando seus papelões e um montão de quinquilharias, mesmo sem nunca termos conversado. Via-se o lampião aceso e ela andando dentro do casebre com seu nariz afilado e torto dando uma sombra horrenda na parede. Já tinha colocado dois cordões com latas dependuradas na porta  de entrada da casa do Nélio, pois assim se alguém tentasse entrar faria o maior ruído. Era mesmo uma megera sem coração.

Demos a volta na casa e Tio Astuto tirou seu canivete para abrir a janela lateral à força. Abriu e pulamos para dentro. Pediu para o Jeremias acender o lampião e colocá-lo no chão. Em seguida, para que eu subisse nas costas do Jeremias e nos cobríssemos com o lençol branco. Viramos um fantasma gigante, enquanto o meu primo-tio rodopiava o alumínio fazendo um barulho ensurdecedor de ventania, de gemido, de coisa que não se sabia. Às vezes a gente dava risada, estava engraçado tudo aquilo e aí segurávamos o riso. Ouvimos a velha se movimentando dentro de casa, resmungando. Depois ela se dirigiu ao quintal segurando a sua lamparina e se aproximou da lateral da janela. A sombra de fantasma ficava maior na parede com o reflexo do lampião no chão. Acho que ela levou um susto danado, pois vociferou alguma coisa que não entendemos e voltou apressada para dentro de casa. Ficamos felizes achando que o plano estava dando certo, pois tendo medo de fantasma, ela teria que chamar D. Carlota e seus filhos para morarem de novo na casa e assim espantá-lo. O que a gente não esperava era ela sair com um trabuco na mão e ficar atirando para cima, gritando:

- Vai se embora, Fausto, que da próxima vou atirar para acertar!

Nós nos olhamos embasbacados, a coisa tinha fugido ao nosso controle e corríamos o risco de levar um tiro. Meio tímidos, meio sem saber o que fazer, fomos saindo pela porta mesmo, avançando tortos entre as latas dependuradas do lado de fora da porta. Eu ainda estava enrolado no lençol e fui o último a sair. Acho que nessa hora ela me confundiu com um fantasma de verdade, gritou uma “Ave Maria” e caiu dura para trás.

E agora?!