A VELHA MARUCA
Dava uma dor no coração imaginar que
o Nélio não acompanharia mais as nossas brincadeiras! Sentia falta até das
atrapalhadas da Esmeralda, da sua presença com a gente. Tio Astuto estava
triste de dar pena. Se eu, que só vinha nas férias, sentia isso, imagine ele
que convivia com eles quase todos os dias!
Acho que ninguém conseguia dormir. O
Jeremias ficou lá na pedra dele, olhando as estrelas, e era com tanto fervor
que o fazia que eu tive a impressão de que ele rezava aos céus lá do jeito
dele. A Esmeralda e o Nélio ficaram abraçados no quarto, fazendo companhia para
a sua mãe. De repente ouvi uma pancada leve na minha janela. Levantei-me e vi o
Tio Astuto me chamando. Pulei a janela devagar, pois passar pela sala era
passar por minha avó e meu avô ainda acordados.
Segui-o noite adentro, ele ia com
passos tão firmes, parecia saber o que ia fazer. Carregava um lençol branco
enrolado debaixo do braço e uma folha de alumínio. Andava tão ligeiro e eu com
medo do mato, da noite, de cobras, de grilos, mas confiava nele comigo. Fiquei
com medo também do meu gigante aparecer.
Fez-se um estalo atrás de nós. Meu
coração batia acelerado e nessa hora achei que ia explodir. As folhas começaram
a farfalhar e eu fui sentindo um hálito soprado de entre as folhagens. Era o
gigante, era o gigante! Eu tremia tanto! Voltamo-nos e, aí, que alívio, vimos o
Jeremias que nos seguia.
- Aonde vocês vão?
- Dar um susto na velha. Quero ver se
ela muda ou não de ideia; disse o Tio Astuto resoluto.
- Eu também vou com vocês! - eles se
olharam silenciosamente, um olhar que eu não entendi e nós seguimos até a casa
da velha. Sei lá, vendo os dois assim unidos numa mesma causa meu medo foi
diminuindo.
Eu já a tinha visto de outras vezes.
Ficava sempre espiando o que a gente estava fazendo, e de tanto o Nélio falar,
eu achava mesmo que era uma bruxa resmungona reclamando do mundo, amontoando
seus papelões e um montão de quinquilharias, mesmo sem nunca termos conversado.
Via-se o lampião aceso e ela andando dentro do casebre com seu nariz afilado e
torto dando uma sombra horrenda na parede. Já tinha colocado dois cordões com
latas dependuradas na porta de entrada da
casa do Nélio, pois assim se alguém tentasse entrar faria o maior ruído. Era
mesmo uma megera sem coração.
Demos a volta na casa e Tio Astuto tirou
seu canivete para abrir a janela lateral à força. Abriu e pulamos para dentro. Pediu
para o Jeremias acender o lampião e colocá-lo no chão. Em seguida, para que eu
subisse nas costas do Jeremias e nos cobríssemos com o lençol branco. Viramos
um fantasma gigante, enquanto o meu primo-tio rodopiava o alumínio fazendo um
barulho ensurdecedor de ventania, de gemido, de coisa que não se sabia. Às
vezes a gente dava risada, estava engraçado tudo aquilo e aí segurávamos o
riso. Ouvimos a velha se movimentando dentro de casa, resmungando. Depois ela
se dirigiu ao quintal segurando a sua lamparina e se aproximou da lateral da
janela. A sombra de fantasma ficava maior na parede com o reflexo do lampião no
chão. Acho que ela levou um susto danado, pois vociferou alguma coisa que não
entendemos e voltou apressada para dentro de casa. Ficamos felizes achando que
o plano estava dando certo, pois tendo medo de fantasma, ela teria que chamar
D. Carlota e seus filhos para morarem de novo na casa e assim espantá-lo. O que
a gente não esperava era ela sair com um trabuco na mão e ficar atirando para
cima, gritando:
- Vai se embora, Fausto, que da
próxima vou atirar para acertar!
Nós nos olhamos embasbacados, a coisa
tinha fugido ao nosso controle e corríamos o risco de levar um tiro. Meio
tímidos, meio sem saber o que fazer, fomos saindo pela porta mesmo, avançando tortos
entre as latas dependuradas do lado de fora da porta. Eu ainda estava enrolado
no lençol e fui o último a sair. Acho que nessa hora ela me confundiu com um
fantasma de verdade, gritou uma “Ave Maria” e caiu dura para trás.
E agora?!
