ENAMORADOS
De certa forma foi bom ficar de
castigo o dia inteiro, pois no dia seguinte quando acordei já tinha um sol
danado no céu e lá no quintal brincavam o Bentinho e o Nélio, enquanto a
Esmeralda ajudava a vovó, a tia Ruth e a tia Adelaide na cozinha dando suas
risadas. Parecia tudo normal, o Jeremias estava dormindo sob a árvore, mas cadê
o Tio Astuto? Olhei ao redor e nada, e quando perguntei a vovó pelo meu
primo-tio, ela, no meio dos seus afazeres na cozinha, só me respondeu um rápido
“- por aí.”.
Saí também “por aí” à procura do Tio
Astuto, até porque estava bravo com o Jeremias e não queria ficar perto dele. O Nélio largou de brincar com o Bentinho e foi
me seguindo. Nós o encontramos à beira do rio, quieto, olhando as águas,
jogando uma pedrinha aqui e acolá. Sentamo-nos ao seu lado esperando, como
sempre, que ele desse a ideia de alguma brincadeira. Deu nada, continuou quieto
sem falar palavra. Eu sabia que era a historia com a dona Maruca que o
incomodava, pois incomodava a mim também. Eu queria achar um jeito de me
desculpar e não sabia como. Foi o Bentinho que tomou a iniciativa.
- Eu queria me desculpar com “ela”;
reforçou mais no pronome, indicando que falava da sua vizinha.
- Eu também; balbuciou o Tio Astuto,
para surpresa minha e do Nélio. Nunca o tinha visto desculpar-se de nada. Acho que esse era o
grande problema dele. Sentir esse dever por dentro, essa coisa pesada da injustiça
e ter um orgulho grande e forte que impede a humildade de se manifestar.
- É, eu fico pensando em como fazer
isso. Acho fraco só falar “desculpe-me”; eu pronunciei pondo voz em meus
pensamentos. Tio Astuto me olhou surpreso, talvez por ver que debaixo do cara
quieto que eu sou tem um pensamento que se desenrola, ou talvez por eu
adivinhar suas inquietações. Percebendo isso, desenvolvi mais a minha ideia:
- Primeiro, precisamos decidir o que queremos fazer de fato.
Nossas desculpas serão sinceras? Queremos mesmo pedir desculpas, mesmo que de
outra forma? – olhei-os e eles assentiram com a cabeça, permanecendo calados
esperando de mim a estratégia. Continuei então, andando entre as árvores,
próximo deles. Eu me senti como meu professor de ciências andando pela classe,
ao mesmo tempo conversando conosco, os alunos, e também com os pensamentos
dele. Achava bonito isso.
- Precisamos então estabelecer uma estratégia. Não devemos
ser exagerados, ou parecerá falso o nosso arrependimento, e nem muito calados,
ou parecerá que não partiu de nós, mas sim de uma ordem dos adultos.
- Você está certo, Caio, e eu quero dizer que as minhas
desculpas são profundas, pois foi ela quem nos defendeu do alemão, e eu sempre
a chamei de bruxa; disse o Nélio. Tio Astuto permaneceu calado, apenas nos
ouvindo com muito interesse. E eu me senti feliz por minhas lições da escola
servirem para algo válido, pois agora era eu o contador de histórias para o meu
primo-tio .
- Bem, para desfazermos essa situação desagradável devemos
tomar uma iniciativa e não esperar que a vovó ou o vovô nos mandem ou que isso
passe em branco. Será muito mais considerado sermos os primeiros a tomarmos
essa frente.
- É, e antes do traiçoeiro do Jeremias; interrompeu o Nélio.
- Também não entendo porque o Jeremias foi com a gente mesmo
sabendo da verdade. Isso é uma conta a ser acertada depois; e eu ia falando
conforme via as reações no olhar do Tio Astuto, ora aprovando, ora
contrariando-se quando era mencionado o Jeremias.
- A humildade,
sinceridade e a cortesia são sentimentos valorosos, se não forem exagerados.
- Ela pode querer tripudiar sobre a nossa humildade e cortesia; retrucou
o Tio Astuto.
- Devemos nos controlar para alcançarmos nosso objetivo.
Afinal, essa é uma conta mais nossa, de cada um consigo mesmo do que com ela. A
gente quer reparar essa injustiça, não é? Bem melhor será se ela nos perdoar,
mas se não, a gente corre esse risco, de nós para nós o trabalho estará feito,
pois é sincera a nossa intenção; concluí fazendo o Nélio arregalar os olhos com
admiração.
- Fica combinado assim: se ela espezinhar sobre nosso pedido,
nós nos controlamos e nos calamos, ou propomos uma tarefa, quem sabe?
- Boa ideia!; o Tio Astuto começou a se entusiasmar. Essa
matéria entrava no campo dele, era de coisas práticas que ele gostava e era um
verdadeiro perito. Para ele o melhor seria pedir desculpas fazendo tarefas para
ela, ajudando-a em alguma coisa. Mesmo não sendo em palavras, era um gesto de
muito valor, eu lhe disse. A partir daí passamos a elencar o que deveria conter
ou não no nosso pedido de desculpas, minuciosamente, e ficamos eufóricos. Só de
estar planejando isso com todo nosso afeto e nosso empenho sincero dava leveza
à nossa alma.
Ficou acertado que haveria pecadilhos que não poderíamos
jamais cometer, tais como, não perdermos nossa serenidade e a nossa verdade. Nós
não precisávamos ser o que não éramos, cada uma à sua maneira seria mais
verdadeiro. Mesmo morrendo de vontade de detonar com o Jeremias, nem mencionar
seu nome, nem o do alemão, ou seja, não criticar ninguém, ou perderíamos a
credibilidade. Quem fala mal de um na sua frente pode falar de você na frente de
outro. Não ser impaciente, afinal, a gente tem de sair de lá desculpado, isto
é, a senhora tem de se sentir realmente reparada na sua mágoa em relação ao que
fizemos. Era isso, a grande chave: sairmos verdadeiramente desculpados! Em
hipótese alguma chamá-la de velha Maruca, mas de senhora Maruca. Nada de falsos
elogios, afinal, a gente nem se conhece. Era bom também não irmos sem camisa ou
camiseta.
- Aí já está mudando a gente demais! , reclamou o Nélio.
- Só a camiseta ou camisa, Nélio, gente mais velha acha falta
de respeito ficar assim pelado; retruquei aludindo à sua mania de andar
descalço e sem camiseta.
- Você fala isso porque não tira a sua e nem esse tênis!
- Tudo bem, pode ir descalço, mas ponha uma camiseta, eu te
dou uma!
- Aquela da banda? - os olhos dele brilharam.
- Aquela da banda, pode ser!; eu concordei.
- A parte de ajudar com alguma tarefa tem de ver se ela quer
ou deixa. Conforme ela nos receber a gente vai vendo até onde seguir;
levantamo-nos todos para buscarmos a camiseta para o Nélio e depois seguirmos rumo
à casa da dona Maruca. Antes, porém, o Tio Astuto nos advertiu:
- Lembrem-se, se um do grupo se
desviar dessa estratégia faz cair por terra a missão de todos os demais.
Concordamos, estávamos enamorados de
nossa ideia!.
