espaço de ser criança!

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domingo, 26 de junho de 2016

TIO ASTUTO - EPÍLOGO





A DANÇA DE SOMBRINHA
Um dia tempo ruim, outro dia tempo bom. Tio Astuto, Jeremias e eu fomos logo pela manhã buscar o Nélio e a Esmeralda e saímos pelos campos, andando a esmo. Estava um dia bonito de sol, o cheiro da terra molhada, as folhas salpicadas de gotas, passarinhos cantando. Demos o cordial olá a dona Maruca e a Esmeralda cismou que tinha de levar a sobrinha nova que ganhou da tia Consuelo, a minha mãe, e levou. Andava com a sombrinha aberta sob o sol, uma sombrinha cheia de babados, feita de um tecido em florzinhas miúdas. Era teimosa, não adiantava dizer que não, e sabia que contaria com a boa vontade de nós todos.

Quem não quer que os pais permaneçam juntos e felizes? Claro que eu queria, mas não era o que eu tinha. Fazia tempo já que a minha casa era um caos, fazia tempo que no meio do caos ninguém tinha amor ou atenção para me dar. Por isso, apesar de triste, eu me sentia aliviado. Como me disse o vô Otávio, “a vida segue adiante, e não se demora no passado”. Eu tinha muitos amigos na escola cujos pais eram separados, e eles diziam que a vida tinha melhorado considerando o que tinham antes com as brigas. É que depois de separados, parecia que cada um – pai e mãe – entrava no seu próprio equilíbrio, e aí podia dar mais atenção aos filhos, podia demonstrar mais o seu amor, participar mais de sua vida. E a mamãe explicou que a guarda seria compartilhada. Isto quer dizer que os dois participariam juntos da minha vida, os dois saberiam de mim, decidindo juntos tudo. Era melhor do que o que eu tinha no tempo do caos.

- Bom, já que eles não estão juntos, ainda bem que pelo menos estão vivos e felizes; concluí e me arrependi tremendamente quando vi o Nélio arregalar seus olhos e ficar um silêncio pesado no ar. É que os pais do Tio Astuto tinham morrido num acidente de carro quando vinham do Sul visitar a vovó, e só ele sobreviveu, por um milagre, pois o acidente foi feio. Ele tinha cinco anos quando isso aconteceu, e ele acabou sendo criado pela tia Adelaide e meus avós. Tio Astuto  quebrou o silêncio e veio em meu socorro:

- É verdade o que o Caio disse. É melhor que eles estejam vivos e felizes. Sinto muita saudade dos meus pais, gostaria que estivessem aqui, mas não estão. Tenho, porém, tantas lembranças boas, o vovô e a vovó contam tantas histórias bonitas, jamais perderei as coisas que guardo na memória. Construa também sua boa memória, Caio, ela é boa companheira, e como disse o vovô, a vida segue adiante e não se demora no passado.

- É, e é melhor isso que um mau padrasto saindo escorraçado por uma velhota!; arrematou o Nélio com uma cara séria. A gente se entreolhou, a cara dele estava engraçada e a fala dele parecia uma piada, e nós acabamos caindo numa gargalhada.

Era bom demais ter amigos como aqueles. Não valia trocá-los pelos falsos afagos de uma menina linda, mas mimada, que acreditava demais no encanto da sua beleza externa apenas. Beleza por fora conta bem pouco, eu aprendi, era mais bonita a beleza interior. Dei uma risada pensando nisso e ao contar ao Tio Astuto ele também riu, andando comigo pondo os braços sobre os meus ombros. Na frente iam correndo a Esmeralda dançando com sua sombrinha,  e só pra espicaçá-la o Nélio tirou-lhe a sombrinha e foi jogando para cada um de nós, fazendo-a de boba. Corríamos dela dançando com sua sombrinha, ela gritava atrás de nós, xingando, brava e nós todos ríamos dançando a esmo para lá e para cá.

Minha aproximação do Jeremias aproximou também o tio do sobrinho, dissipando as diferenças que eles tinham, pois vimos todos o bom camarada que o Jeremias sabia ser. Ele também ficou mais feliz e mais à vontade no meio de nós, sendo mesmo parte do grupo. 

Eu sabia que teria que voltar e que na volta, uma nova vida me esperava. Eu levava dessas férias com meus primos grandes aprendizados e grandes experiências, pois aprendi a ser mais alegre e mais seguro. O vovô, citando um tal de Tagore, um filósofo indiano, diz que o amor é o real significado de tudo o que nos cerca. Não é um simples sentimento, é ele que traz  a verdade, constrói a alegria, dá origem a toda criação, e que a amizade sincera é a melhor coisa desse mundo. Eu concordo, e acho também que uma nova vida aguardava esse novo Caio que eu agora era:

- Um menino feliz dançando de sombrinha a vida e a amizade sincera!

FIM.