A DANÇA DE SOMBRINHA
Um dia tempo ruim, outro dia tempo
bom. Tio Astuto, Jeremias e eu fomos logo pela manhã buscar o Nélio e a
Esmeralda e saímos pelos campos, andando a esmo. Estava um dia bonito de sol, o
cheiro da terra molhada, as folhas salpicadas de gotas, passarinhos cantando.
Demos o cordial olá a dona Maruca e a Esmeralda cismou que tinha de levar a
sobrinha nova que ganhou da tia Consuelo, a minha mãe, e levou. Andava com a
sombrinha aberta sob o sol, uma sombrinha cheia de babados, feita de um tecido
em florzinhas miúdas. Era teimosa, não adiantava dizer que não, e sabia que
contaria com a boa vontade de nós todos.
Quem não quer que os pais permaneçam
juntos e felizes? Claro que eu queria, mas não era o que eu tinha. Fazia tempo
já que a minha casa era um caos, fazia tempo que no meio do caos ninguém tinha
amor ou atenção para me dar. Por isso, apesar de triste, eu me sentia aliviado.
Como me disse o vô Otávio, “a vida segue
adiante, e não se demora no passado”. Eu
tinha muitos amigos na escola cujos pais eram separados, e eles diziam que a
vida tinha melhorado considerando o que tinham antes com as brigas. É que
depois de separados, parecia que cada um – pai e mãe – entrava no seu próprio
equilíbrio, e aí podia dar mais atenção aos filhos, podia demonstrar mais o seu
amor, participar mais de sua vida. E a mamãe explicou que a guarda seria
compartilhada. Isto quer dizer que os dois participariam juntos da minha vida,
os dois saberiam de mim, decidindo juntos tudo. Era
melhor do que o que eu tinha no tempo do caos.
- Bom, já que eles não estão juntos,
ainda bem que pelo menos estão vivos e felizes; concluí e me arrependi tremendamente
quando vi o Nélio arregalar seus olhos e ficar um silêncio pesado no ar. É que
os pais do Tio Astuto tinham morrido num acidente de carro quando vinham do Sul
visitar a vovó, e só ele sobreviveu, por um milagre, pois o acidente foi feio.
Ele tinha cinco anos quando isso aconteceu, e ele acabou sendo criado pela tia
Adelaide e meus avós. Tio Astuto quebrou
o silêncio e veio em meu socorro:
- É verdade o que o Caio disse. É
melhor que eles estejam vivos e felizes. Sinto muita saudade dos meus pais,
gostaria que estivessem aqui, mas não estão. Tenho, porém, tantas lembranças
boas, o vovô e a vovó contam tantas histórias bonitas, jamais perderei as
coisas que guardo na memória. Construa também sua boa memória, Caio, ela é boa
companheira, e como disse o vovô, a vida segue adiante e não se demora no
passado.
- É, e é melhor isso que um mau
padrasto saindo escorraçado por uma velhota!; arrematou o Nélio com uma cara
séria. A gente se entreolhou, a cara dele estava engraçada e a fala dele
parecia uma piada, e nós acabamos caindo numa gargalhada.
Era bom demais ter amigos como
aqueles. Não valia trocá-los pelos falsos afagos de uma menina linda, mas
mimada, que acreditava demais no encanto da sua beleza externa apenas. Beleza
por fora conta bem pouco, eu aprendi, era mais bonita a beleza interior. Dei
uma risada pensando nisso e ao contar ao Tio Astuto ele também riu, andando
comigo pondo os braços sobre os meus ombros. Na frente iam correndo a Esmeralda
dançando com sua sombrinha, e só pra
espicaçá-la o Nélio tirou-lhe a sombrinha e foi jogando para cada um de nós,
fazendo-a de boba. Corríamos dela dançando com sua sombrinha, ela gritava atrás
de nós, xingando, brava e nós todos ríamos dançando a esmo para lá e para cá.
Minha aproximação do Jeremias
aproximou também o tio do sobrinho, dissipando as diferenças que eles tinham,
pois vimos todos o bom camarada que o Jeremias sabia ser. Ele também ficou mais
feliz e mais à vontade no meio de nós, sendo mesmo parte do grupo.
Eu sabia que teria que voltar e que
na volta, uma nova vida me esperava. Eu levava dessas férias com meus primos
grandes aprendizados e grandes experiências, pois aprendi a ser mais alegre e
mais seguro. O vovô, citando um tal de Tagore,
um filósofo indiano, diz que o amor é o
real significado de tudo o que nos cerca. Não é um simples sentimento, é ele que
traz a verdade, constrói a alegria, dá
origem a toda criação, e que a amizade sincera é a melhor coisa desse mundo. Eu
concordo, e acho também que uma nova vida aguardava esse novo Caio que eu agora
era:
- Um menino feliz dançando de
sombrinha a vida e a amizade sincera!
FIM.
