espaço de ser criança!

espaço de ser criança!

sexta-feira, 3 de junho de 2016

TIO ASTUTO- CAP 3



O GOVERNADOR DO CÉU
 


Na manhã seguinte acordei com a risada do Tio Astuto encostado no fogão à lenha na cozinha, debochando da história da Esmeralda. Pulei da cama e já fui correndo para junto deles, queria ouvir. Vovó deu risada quando me viu entrar apressado e já me acomodar à mesa, olhando firme para a risada do meu primo-tio e rindo junto com ele de algo que ainda não conhecia. Porém, como eu já disse, vindo dele sei que a coisa é boa.

- É verdade! - ele se ria - eu não queria ser computador, envelhece rápido demais, tudo fica obsoleto, ultrapassado, programa, velocidade, antivírus, tudo! Dura no máximo seis meses e pronto, está velho de cair!

- Ai, meu Deus, de onde você tira essas coisas, Tio Astuto?, ria-se minha avó Eulália, e a Esmeralda também, mesmo sem nem saber o que era computador, porque ela tinha abandonado a escola bem cedo. E eu também, que ainda não havia pensado sobre isso e achei mesmo engraçado. Enquanto ele dava lições sobre meio ambiente, imaginei meu computador em casa de cabelos brancos, tossindo, precisando de uma bengala, de um xarope, com as letras da tela caindo sobre o teclado, arrastando, até se precipitarem da mesa ao chão. O quarto sendo deletado aos poucos, perdendo o chão, as imagens e os móveis flutuando meio borrados, tortos, ondulados, até sumirem de vez.

- Já pensou quanto lixo ele faz no mundo? Cada pessoa renovando mais lixo de seis em seis meses, os satélites no espaço, o lixo do mundo?! – e eu me perdia dessa vez entre os entulhos do mundo, o planeta enterrado numa montanha de lixo tecnológico, e eu assustado, com medo, sem ninguém ao meu lado, sendo enterrado no lixo junto com ele. A via Láctea  transformada num caminho de trevas e porcarias, muitas, muitas caixas de lanches de várias lanchonetes que eu conhecia, caixas de brinquedos, brinquedos tecnológicos quebrados, celulares, satélites, coisas caindo da avenida de caos. Quanto lixo, meu Deus! Mil garrafas pet dependuradas em estrelas formando braços que se entrelaçavam e criavam uma rede de muito caos. A gente podia ser sugado  pela teia e atirado no buraco negro, perdendo-se para sempre...

- Nem gosto de pensar, ele continuou, coçando a cabeça, vamos brincar Caio, enquanto ainda dá.  Eu o segui aliviado por sair do pesadelo, sem esquecê-lo, presumo, pois à noite tive um sonho estranho.

Lembro-me que a noite vinha em presente e que eu era um menino com sonhos de menino e gostava de ficar contando estrelas naquele céu fictício, enfeitado de constelações que o mundo desconhecia e eu achava inventar, dando-lhes nomes misteriosos. Eu dava às minhas constelações os nomes de heróis e deuses mitológicos que eu conhecia, muito pelo conhecimento adquirido em animes japoneses. Eu governava o céu, para alegria minha e risos condescendentes dos meus adultos. Eu apontava uma constelação, dava-lhe um nome e as estrelas piscavam para mim. Eu pensava, no sonho, se as estrelas me mandariam seres extraordinários para me saudarem agradecendo a descoberta. Tinha sido só um pensamento, mas acho que o céu entendeu como ordem, pois obedeceu.

De repente o céu se alumiou de forma estranha, uma luz se abriu no meio das incontáveis estrelas para jogar aos meus pés, na varanda, um gigante amável, feito em pó de estrelas e horripilância – a cara boa contra suas formas bestiais,  espetadas de lixo tecnológico dos satélites, tudo desproporcionado – boca gigante, olhos na testa e no queixo, um focinho bem pequeno, na cabeça circuitos em forma de espirais cheias de estrelas que se moviam acendendo uma luz que me fazia cegar. Imóvel, petrificado, eu o vi sorrir, olhar-me com ternura e desaparecer como veio – em poeira e luz.

No sonho eu desfaleci por algum tempo, e acho que gritei, pois fui acordando em meio aos chamados aflitos de vovó Eulália, assustada com meus gritos e a voz apaziguadora de meu avô Otávio fazendo-me voltar.

Fui na cozinha com minha avó beber um pouco de chá. A janela estava aberta, tinha uma escuridão danada para fora dela, e entrava uma brisa fresca espantando o calor e os medos. Aproximei-me para esticar a vista ao céu, foi quando avistei o Jeremias sentado na pedra grande lá da estradinha, perto da porteira. Ele segurava um ramo de capim que ele mastigava, como sempre fazia, enquanto olhava o céu.

Pensei se ele era o governador do céu, se ele esperava alguma coisa ou alguém nessa vigília. Esta ideia assombrou-me um pouco, pois esse alguém podia ser o meu gigante horrendo e amistoso lá do meu pesadelo. Vê-lo lá sentado, sem medo nenhum me deu certo sossego, porque ele parecia tomar conta da noite para nosso sossego. Talvez fosse isso, ele precisava permanecer acordado para governar o céu e deixar os nossos sonos tranquilos. Era por isso que ele ficava sonolento de dia. Tomei o chá e fui dormir, dessa vez pensando no Jeremias.

Precisava falar disso com o Tio Astuto: seu sobrinho era o governador do céu!