O GOVERNADOR DO CÉU
Na manhã seguinte acordei com a
risada do Tio Astuto encostado no fogão à lenha na cozinha, debochando da história
da Esmeralda. Pulei da cama e já fui correndo para junto deles, queria ouvir.
Vovó deu risada quando me viu entrar apressado e já me acomodar à mesa, olhando
firme para a risada do meu primo-tio e rindo junto com ele de algo que ainda
não conhecia. Porém, como eu já disse, vindo dele sei que a coisa é boa.
- É verdade! - ele se ria - eu não
queria ser computador, envelhece rápido demais, tudo fica obsoleto, ultrapassado,
programa, velocidade, antivírus, tudo! Dura no máximo seis meses e pronto, está
velho de cair!
- Ai, meu Deus, de onde você tira
essas coisas, Tio Astuto?, ria-se minha avó Eulália, e a Esmeralda também,
mesmo sem nem saber o que era computador, porque ela tinha abandonado a escola
bem cedo. E eu também, que ainda não havia pensado sobre isso e achei mesmo
engraçado. Enquanto ele dava lições sobre meio ambiente, imaginei meu
computador em casa de cabelos brancos, tossindo, precisando de uma bengala, de
um xarope, com as letras da tela caindo sobre o teclado, arrastando, até se
precipitarem da mesa ao chão. O quarto sendo deletado aos poucos, perdendo o
chão, as imagens e os móveis flutuando meio borrados, tortos, ondulados, até
sumirem de vez.
- Já pensou quanto lixo ele faz no
mundo? Cada pessoa renovando mais lixo de seis em seis meses, os satélites no
espaço, o lixo do mundo?! – e eu me perdia dessa vez entre os entulhos do
mundo, o planeta enterrado numa montanha de lixo tecnológico, e eu assustado,
com medo, sem ninguém ao meu lado, sendo enterrado no lixo junto com ele. A via
Láctea transformada num caminho de
trevas e porcarias, muitas, muitas caixas de lanches de várias lanchonetes que
eu conhecia, caixas de brinquedos, brinquedos tecnológicos quebrados, celulares,
satélites, coisas caindo da avenida de caos. Quanto lixo, meu Deus! Mil
garrafas pet dependuradas em estrelas formando braços que se entrelaçavam e
criavam uma rede de muito caos. A gente podia ser sugado pela teia e atirado no buraco negro,
perdendo-se para sempre...
- Nem gosto de pensar, ele continuou,
coçando a cabeça, vamos brincar Caio, enquanto ainda dá. Eu o segui aliviado por sair do pesadelo, sem
esquecê-lo, presumo, pois à noite tive um sonho estranho.
Lembro-me que a noite vinha em
presente e que eu era um menino com sonhos de menino e gostava de ficar
contando estrelas naquele céu fictício, enfeitado de constelações que o mundo
desconhecia e eu achava inventar, dando-lhes nomes misteriosos. Eu dava às
minhas constelações os nomes de heróis e deuses mitológicos que eu conhecia,
muito pelo conhecimento adquirido em animes japoneses. Eu governava o céu, para
alegria minha e risos condescendentes dos meus adultos. Eu apontava uma
constelação, dava-lhe um nome e as estrelas piscavam para mim. Eu pensava, no
sonho, se as estrelas me mandariam seres extraordinários para me saudarem
agradecendo a descoberta. Tinha sido só um pensamento, mas acho que o céu
entendeu como ordem, pois obedeceu.
De repente o céu se alumiou de forma
estranha, uma luz se abriu no meio das incontáveis estrelas para jogar aos meus
pés, na varanda, um gigante amável, feito em pó de estrelas e horripilância – a
cara boa contra suas formas bestiais, espetadas de lixo tecnológico dos satélites,
tudo desproporcionado – boca gigante, olhos na testa e no queixo, um focinho
bem pequeno, na cabeça circuitos em forma de espirais cheias de estrelas que se
moviam acendendo uma luz que me fazia cegar. Imóvel, petrificado, eu o vi
sorrir, olhar-me com ternura e desaparecer como veio – em poeira e luz.
No sonho eu desfaleci por algum
tempo, e acho que gritei, pois fui acordando em meio aos chamados aflitos de vovó
Eulália, assustada com meus gritos e a voz apaziguadora de meu avô Otávio
fazendo-me voltar.
Fui na cozinha com minha avó beber um
pouco de chá. A janela estava aberta, tinha uma escuridão danada para fora
dela, e entrava uma brisa fresca espantando o calor e os medos. Aproximei-me para
esticar a vista ao céu, foi quando avistei o Jeremias sentado na pedra grande
lá da estradinha, perto da porteira. Ele segurava um ramo de capim que ele
mastigava, como sempre fazia, enquanto olhava o céu.
Pensei se ele era o governador do
céu, se ele esperava alguma coisa ou alguém nessa vigília. Esta ideia assombrou-me
um pouco, pois esse alguém podia ser o meu gigante horrendo e amistoso lá do
meu pesadelo. Vê-lo lá sentado, sem medo nenhum me deu certo sossego, porque
ele parecia tomar conta da noite para nosso sossego. Talvez fosse isso, ele
precisava permanecer acordado para governar o céu e deixar os nossos sonos
tranquilos. Era por isso que ele ficava sonolento de dia. Tomei o chá e fui
dormir, dessa vez pensando no Jeremias.
Precisava falar disso com o Tio
Astuto: seu sobrinho era o governador do céu!
