AS VOLTAS QUE O MUNDO DÁ
Maldita camiseta! Quando entrei
apressado em casa enquanto os dois me aguardavam na porteira, primeiro veio o Bentinho
me seguindo querendo saber o que vinha pegar. Atrás dele, meio à espreita, veio
o Jeremias, querendo ver se eu soltava alguma coisa para o insistente irmão.
Peguei a camiseta e fui saindo, sem responder nada. Antes dei uma boa olhada no
Jeremias, cara a cara, e meu silêncio falou tudo. Fui atravessando o quintal e
a vovó quis saber também. Só respondi que estava com calor e ia levar a
camiseta para trocar quando a minha estivesse suada. A vovó estranhou, mas
acreditou, pois me achava um pouco cheio de “manias da cidade”. Veio então a
advertência: para longe só se acompanhados da Esmeralda, e a moça lá no
alpendre, espevitada, rindo vitoriosa. Não adiantou meu esperneio, ela teve de
ir com a gente. Fiquei preocupado de o Tio Astuto ficar irritado e querer
cancelar o plano pela presença dela, mas que nada, parecia até que ele tinha
gostado. E o Jeremias ficou lá, de longe, vendo a gente seguir caminho.
Ficamos espiando a casa do lado de
fora, atrás de umas folhagens. Nada de sinal de dona Maruca, mas as janelas
estavam abertas e saía fumaça pela chaminé. Devia estar nos fundos. Ficamos com
medo de nos aproximarmos e a assustarmos outra vez. Vai que ela tinha outro
piripaque! Esperamos um tempão lá fora, atrás da moita.
- Eu vou lá falar com ela!; disse a
Esmeralda já se levantando. Não deu nem tempo da gente contestar ou segurá-la,
ela já foi logo saindo detrás da moita e atravessando a trilha, o portãozinho e
batendo palmas para chamá-la.
- Ela vai estragar nosso plano!;
resmunguei.
- Não vai não, as mulheres se
entendem; sorriu o Tio Astuto. Fiquei aliviado e também ressabiado, ele tinha
olhos de admiração para ela.
As pessoas podem ficar enamoradas de
uma ideia ou de uma causa, ou de outra pessoa. Foi só ali que eu percebi que
ele estava enamorado dela, da Esmeralda, e o Jeremias também, e por isso havia
tanta rivalidade entre os dois. Com esse mesmo olhar ele se apossou de sua
própria coragem e já ia acompanhá-la, quando o Jeremias surgiu do nada, a gente
não viu de onde, e se colocou do lado dela, de maneira que quando a dona Maruca
apareceu, eram os dois lá na frente, e nós saindo da moita mais atrás. Ou seja,
novamente o Jeremias se apossou de uma glória que não era dele. O Nélio e eu
ficamos furiosos!
Tio Astuto ficou decepcionado a
princípio, eu notei, mas depois uma serenidade tomou conta dele, que até nos
assustou. E nós o seguimos meio abobalhados. O Jeremias apresentou suas
desculpas formais, a Esmeralda fez o mesmo com bastante emoção, chegou mesmo a
chorar enquanto falava. A senhora olhava-nos desconfiada, mas as lágrimas da
Esmeralda arrefeceram as dúvidas que ela tinha e ela aceitou de bom grado as
desculpas, todos se despediram e fomos embora para casa.
- Não estou entendendo; cochichei com
o Nélio.
- Nem eu!; ele respondeu com uma cara
de abestado.
Claro, a Esmeralda já foi logo
contando do acontecido e mesmo sem ela dizer dessa forma, ficou parecendo que a
coisa era lá do “sobrinho”, que eu nem quero falar esse nome de tanta raiva
dele! Aguentamos o Bentinho até o almoço, o “outro” dormindo lá debaixo da
árvore dele, meus avós fazendo a sesta, e nós olhando nuvens. Quando tudo
estava quieto e eu já até me acalmava de minha raiva, Tio Astuto falou:
- É agora!; e saiu correndo rumo à
porteira, e o Nélio e eu atrás dele. No caminho ele nos explicou a sua “reestratégia”.
É que a parte mais difícil do plano era mesmo o pedido de desculpas, isso era
duro para ele de dizer, mas fácil de fazer. Ele ficava envergonhado, fazer o
quê?! Tudo bem que um dia ele teria de aprender a fazer isso, mas por enquanto,
vamos lá, respeitemos o jeito dele! Então, o que foi um arranjo bom para ele é
que as palavras saíram da boca do sobrinho, e nós todos estando ao seu lado,
era como se saíssem da nossa boca também. Ele é danado de astuto!
- Entendi, vamos às tarefas, então?!;
disse o Nélio.
- E agora sem precisar nos esconder,
só falando direto e franco; sorriu o Tio Astuto e nós todos rimos juntos. A
desculpa era nossa, ela nos pertencia, era de nós para nós e também para ela, e
aí não precisava de outras testemunhas que não fossem apenas os nossos corações
de verdade e a boa recepção da dona Maruca. E bota boa recepção nisso!
Ela já foi logo nos recebendo como
garotos, com ar maternal de avó. Ajudamos na horta do quintal, e ela de tão
agradecida fez pão e bolo no forno à lenha, e um café com leite cheiroso e
gostoso. Mostrou depois umas fotos de seu falecido marido. Ele tinha sido
tropeiro, e tinha muitas mulas, mas depois perdeu tudo. Os tropeiros eram
homens que faziam comércio de animais e todo tipo de produtos, ela explicou.
Andavam em mulas ou cavalos, e levavam notícias do mundo pelos lugares por onde
passavam. Os tropeiros ajudaram a construir cidades, pois por onde passavam,
aos poucos, foram se formando povoados que foram crescendo e virando cidades. Tinha
sido assim com aquela cidade, por isso a ponte levava o nome dele. Os filhos, ela
disse, eram três, moravam longe, fazia anos que não tinha notícia de nenhum e
ela estava ali esquecida no mato, esquecida até da morte, ela brincou.
- Pois a senhora pode contar comigo
de agora em diante; disse resoluto o Tio Astuto. Pareceu até que os olhos dela
encheram-se de lágrimas. Ela passou a mão nas nossas cabeças e nos serviu mais
bolo.
Eu ainda não entendo por quê o
Jeremias nos levou àquela emboscada, mas ela mudou o curso de muitas histórias
dentro dos destinos. Foi por causa dele que a dona Maruca e nossos amigos foram
salvos com a chegada de minha avó, foi por ele que as desculpas saíram, foi por
ele que agora aquela senhora solitária tinha bons amigos de verdade, e enfim, por
ele, o arranjo ficou muito melhor em tudo do que era antes. Por isso, uma
grande pergunta passou a andar comigo.
E agora, ficava com raiva dele ou não?
