espaço de ser criança!

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domingo, 26 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 15





O GIGANTE APARECE
O Jeremias sempre gostou de ser grande, de ser mais velho que o tio, e evitava de estar muito próximo de nós para não ser confundido com um menino. Não tendo outra escolha, ficava, mas à distância, guardando sua maioridade sobre nós, e fugindo léguas do Bentinho, pois estar em casa era ficar olhando o irmão ou tia Adelaide e os avós ralhavam com ele. Naquela noite fatídica, ao nos acompanhar, ele nos seguiu por dois motivos: primeiro para evitar que fizéssemos alguma besteira, e a segunda foi para participar de nossas estripulias. O que se passou com o peixe não foi culpa dele, “as coisas acontecem sem a minha mão”, foi o que ele disse.

- Você não está aqui agora sem a minha mão?; fitou-me firmemente e tive que concordar que sim. É que depois daquele beijo eu me afastei do Tio Astuto, achei-me traído pelo meu amigo, achei-me de novo pequeno na minha autoestima, por isso nem voltei mais à cidade ou à casa da dona Maruca. Passei a andar mais com o Jeremias e a conhecer o seu mundo. Nélio ficou bravo comigo, não disse nada, porém seu olhar era ressentido para mim e eu não me animava a me explicar, estava triste. Parece que o Tio Astuto e o Jeremias também andaram discutindo por mim, acirrando mais a antiga pendenga que havia entre os dois.  Foi aí que eu soube o motivo dessa rivalidade. Na verdade o Tio Astuto era para ser Júnior, porque carregava o mesmo nome do pai - Astolfo Assis de Bartolli Júnior – ao invés disso, carregava consigo essa mágoa, essa coisa como se o nome tivesse sido tirado dele, a grande herança do pai para ele, além dos livros que ele tinha. Então, o que lhe restou, foram os livros do pai que ele lia, para tentar puxar o gênio do pai, pescador dos bons e bom contador de “causos”.

Senti falta de minha mãe ouvindo aquilo. Fazia tempo que ela não ligava, e nem o meu pai. Os dois andavam sempre muito ocupados, não se falavam muito também nos últimos tempos. Não tinha sido sempre assim - ela era presente, conversava abertamente comigo, participava da minha vida, dava conselhos e ralhava comigo quando necessário. Agora não, consigo no máximo uma bronca por telefone.

Antigamente ela e meu pai estavam sempre comigo, a gente passeava em parques, em festas de amigos, em casa. De repente tudo foi sumindo, as pessoas também deixaram de aparecer,  vieram as brigas e caos e depois o silêncio sobre as ruínas, eu lá entre elas. Acho que foi isso aquele meu sonho de lixo tecnológico. Eu me sentia parte dele.

Mamãe às vezes me carrega nos seus compromissos, uma forma talvez de compensar a sua ausência. Isso não resolve, pois eu me sinto como a sua bolsa, largada ao lado, sem vida, um acessório apenas. Papai também trabalha muito e nos finais de semana lê seu jornal, vai a compromissos, a infindáveis reuniões e à noite dorme no sofá. Não sobra tempo para nós,  não temos muito o que conversar.

Tem muita semelhança com minha antiga mãe a tia Adelaide: carinhosa com seus filhos, presente, cautelosa e brava quando tem de ser, lá do jeito dela. Havia um assunto proibido na casa, não se falava muito nisso, mas o pai do Jeremias e do Bentinho, o tio Alfredo, sumiu de repente, largando tia Adelaide sozinha com os meninos ainda bem pequenos. Eu ficava olhando o jeito dela com eles, beijo para lá, beijo para cá, pomadinhas, remedinhos, comidinhas, até os xingamentos que ela dava eram uma forma de atenção. E de pai, eles não precisavam, eles tinham o vô Otávio. Será que ela gostaria que eu fosse seu filho?

É, eu estava muito triste, e andar com o Jeremias, com seu jeito calado olhando nuvens, olhando o nada, isso me reconfortava, pois eu não precisava dizer nada também. Numa de nossas poucas conversas ele me explicou sobre a Esmeralda, explicou-me que eles já foram namorados várias vezes, eles vêm e vão, é assim que eles são. Ao dizer isso jogou uma pedra na água mansa do rio e ficamos olhando as ondas formadas se espalhando. Estávamos quietos, serenos, o sol estava quente, tínhamos uma boa sombra de árvore, quando de repente ouvi batidas fortes e pesadas no chão, e um vozeirão repetindo:

- Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão!

Arregalei os olhos buscando ver de onde vinha aquilo, e sentia tanto o barulho das pisadas no chão quanto a voz se aproximarem cada vez mais. Jeremias sorria para a minha cara de espanto. Logo, logo apareceu perto de nós um gigante negro, alto, alto, grande e gordo, vestido em camisa xadrez agarrada ao corpo e abotoada até o pescoço, as calças largas abotoadas e presas por um cinto grande, as barras das calças dobradas pouco acima dos tornozelos, e pés enormes, enormes de um gigante. Ele estendeu a sua grande mão para mim e soltou sua voz de trovão:

 - Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão!

Fiquei paralisado, morrendo de medo, e como eu não me movesse, ele se voltou para o Jeremias, estendendo a mão. Meu primo brincou um pouco com ele, dançando para lá e para cá em volta dele. O gigante sorria e o seguia, dançando também, repetindo seu pedido por um milhão. Seus pés no chão eram estrondosos, ao contrário dos do Jeremias, tão leves a pularem e rodopiarem. Era assim que ele governava o céu, eu achei, e tive medo de quanto isso poderia demorar, pois eu tinha medo do gigante. Finalmente Jeremias tirou do bolso do short uma moeda e lhe entregou. Ele sorriu para nós dois mexendo a moeda na mão e foi-se embora mata adentro, com seu grito, com seu andar de gigante sacudindo o mundo. Fiquei um tempo assim parado e depois me debrucei na árvore escondendo o rosto entre as mãos e comecei a chorar, chorar muito, chorar em soluços, por muito tempo, até limpar toda a tristeza que estava sentindo. Meu primo me abraçou e eu me abracei a ele como se abraça a um amigo.

Quando voltamos para casa  estavam na sala todos os meninos, minha avó e meu avô e todos me olhavam de um jeito silencioso, pareciam ter pena de mim, pareciam adivinhar a conversa que mais tarde eu teria. Ouvi os passos de minha mãe vindo do corredor em que ficavam os quartos. Conhecia aquele andar sobre saltos bem altos ecoando por tudo. Ao vê-la corri a abraçá-la e ela me abraçou bem forte. Foi tão bom tê-la ali naquela hora, no momento certo em que eu precisava tanto dela. Senti tanto amor! Minha alegria voltou logo, fiquei animado ao seu lado, ela me achou corado, bonito, e disse que tinha sentido a minha falta. Fiquei tão feliz! Meus amigos sorriam para mim enternecidos, tínhamos voltado ao normal.

Após o almoço a mamãe disse que precisávamos ter uma conversa e me chamou para o escritório do vovô. Fomos sozinhos, sob os olhares compridos de todo mundo. Quando voltamos, eu era filho de pais separados. Eu estava muito mole naquele dia, chorei a tarde inteira trancado no quarto.

À noite vi da minha janela que o Jeremias não foi para a pedra, mesmo fazendo um céu danado de bonito. Acho que ele governava o céu através do gigante, dando-lhe as moedas para fazer a noite que ele queria.

Eu queria ter um gigante também para mim!