O GIGANTE APARECE
O Jeremias sempre gostou de ser
grande, de ser mais velho que o tio, e evitava de estar muito próximo de nós
para não ser confundido com um menino. Não tendo outra escolha, ficava, mas à
distância, guardando sua maioridade sobre nós, e fugindo léguas do Bentinho,
pois estar em casa era ficar olhando o irmão ou tia Adelaide e os avós ralhavam
com ele. Naquela noite fatídica, ao nos acompanhar, ele nos seguiu por dois
motivos: primeiro para evitar que fizéssemos alguma besteira, e a segunda foi
para participar de nossas estripulias. O que se passou com o peixe não foi
culpa dele, “as coisas acontecem sem a
minha mão”, foi o que ele disse.
- Você não está aqui agora sem a
minha mão?; fitou-me firmemente e tive que concordar que sim. É que depois
daquele beijo eu me afastei do Tio Astuto, achei-me traído pelo meu amigo, achei-me
de novo pequeno na minha autoestima, por isso nem voltei mais à cidade ou à
casa da dona Maruca. Passei a andar mais com o Jeremias e a conhecer o seu
mundo. Nélio ficou bravo comigo, não disse nada, porém seu olhar era ressentido
para mim e eu não me animava a me explicar, estava triste. Parece que o Tio
Astuto e o Jeremias também andaram discutindo por mim, acirrando mais a antiga
pendenga que havia entre os dois. Foi aí
que eu soube o motivo dessa rivalidade. Na verdade o Tio Astuto era para ser
Júnior, porque carregava o mesmo nome do pai - Astolfo Assis de Bartolli Júnior
– ao invés disso, carregava consigo essa mágoa, essa coisa como se o nome
tivesse sido tirado dele, a grande herança do pai para ele, além dos livros que
ele tinha. Então, o que lhe restou, foram os livros do pai que ele lia, para tentar
puxar o gênio do pai, pescador dos bons e bom contador de “causos”.
Senti falta de minha mãe ouvindo
aquilo. Fazia tempo que ela não ligava, e nem o meu pai. Os dois andavam sempre
muito ocupados, não se falavam muito também nos últimos tempos. Não tinha sido
sempre assim - ela era presente, conversava abertamente comigo, participava da
minha vida, dava conselhos e ralhava comigo quando necessário. Agora não,
consigo no máximo uma bronca por telefone.
Antigamente ela e meu pai estavam
sempre comigo, a gente passeava em parques, em festas de amigos, em casa. De
repente tudo foi sumindo, as pessoas também deixaram de aparecer, vieram as brigas e caos e depois o silêncio
sobre as ruínas, eu lá entre elas. Acho que foi isso aquele meu sonho de lixo
tecnológico. Eu me sentia parte dele.
Mamãe às vezes me carrega nos seus
compromissos, uma forma talvez de compensar a sua ausência. Isso não resolve,
pois eu me sinto como a sua bolsa, largada ao lado, sem vida, um acessório
apenas. Papai também trabalha muito e nos finais de semana lê seu jornal, vai a
compromissos, a infindáveis reuniões e à noite dorme no sofá. Não sobra tempo
para nós, não temos muito o que
conversar.
Tem muita semelhança com minha antiga
mãe a tia Adelaide: carinhosa com seus filhos, presente, cautelosa e brava
quando tem de ser, lá do jeito dela. Havia um assunto proibido na casa, não se
falava muito nisso, mas o pai do Jeremias e do Bentinho, o tio Alfredo, sumiu
de repente, largando tia Adelaide sozinha com os meninos ainda bem pequenos. Eu
ficava olhando o jeito dela com eles, beijo para lá, beijo para cá, pomadinhas,
remedinhos, comidinhas, até os xingamentos que ela dava eram uma forma de
atenção. E de pai, eles não precisavam, eles tinham o vô Otávio. Será que ela
gostaria que eu fosse seu filho?
É, eu estava muito triste, e andar
com o Jeremias, com seu jeito calado olhando nuvens, olhando o nada, isso me
reconfortava, pois eu não precisava dizer nada também. Numa de nossas poucas
conversas ele me explicou sobre a Esmeralda, explicou-me que eles já foram
namorados várias vezes, eles vêm e vão, é assim que eles são. Ao dizer isso
jogou uma pedra na água mansa do rio e ficamos olhando as ondas formadas se
espalhando. Estávamos quietos, serenos, o sol estava quente, tínhamos uma boa
sombra de árvore, quando de repente ouvi batidas fortes e pesadas no chão, e um
vozeirão repetindo:
- Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão, Joaquilão qué milão!
Arregalei os olhos buscando ver de
onde vinha aquilo, e sentia tanto o barulho das pisadas no chão quanto a voz se
aproximarem cada vez mais. Jeremias sorria para a minha cara de espanto. Logo,
logo apareceu perto de nós um gigante negro, alto, alto, grande e gordo,
vestido em camisa xadrez agarrada ao corpo e abotoada até o pescoço, as calças
largas abotoadas e presas por um cinto grande, as barras das calças dobradas
pouco acima dos tornozelos, e pés enormes, enormes de um gigante. Ele estendeu
a sua grande mão para mim e soltou sua voz de trovão:
- Joaquilão qué milão, Joaquilão
qué milão, Joaquilão qué milão!
Fiquei paralisado, morrendo de medo,
e como eu não me movesse, ele se voltou para o Jeremias, estendendo a mão. Meu
primo brincou um pouco com ele, dançando para lá e para cá em volta dele. O
gigante sorria e o seguia, dançando também, repetindo seu pedido por um milhão.
Seus pés no chão eram estrondosos, ao contrário dos do Jeremias, tão leves a
pularem e rodopiarem. Era assim que ele governava o céu, eu achei, e tive medo
de quanto isso poderia demorar, pois eu tinha medo do gigante. Finalmente Jeremias
tirou do bolso do short uma moeda e lhe entregou. Ele sorriu para nós dois
mexendo a moeda na mão e foi-se embora mata adentro, com seu grito, com seu
andar de gigante sacudindo o mundo. Fiquei um tempo assim parado e depois me
debrucei na árvore escondendo o rosto entre as mãos e comecei a chorar, chorar
muito, chorar em soluços, por muito tempo, até limpar toda a tristeza que
estava sentindo. Meu primo me abraçou e eu me abracei a ele como se abraça a um
amigo.
Quando voltamos para casa estavam na sala todos os meninos, minha avó e
meu avô e todos me olhavam de um jeito silencioso, pareciam ter pena de mim,
pareciam adivinhar a conversa que mais tarde eu teria. Ouvi os passos de minha
mãe vindo do corredor em que ficavam os quartos. Conhecia aquele andar sobre
saltos bem altos ecoando por tudo. Ao vê-la corri a abraçá-la e ela me abraçou
bem forte. Foi tão bom tê-la ali naquela hora, no momento certo em que eu
precisava tanto dela. Senti tanto amor! Minha alegria voltou logo, fiquei
animado ao seu lado, ela me achou corado, bonito, e disse que tinha sentido a minha
falta. Fiquei tão feliz! Meus amigos sorriam para mim enternecidos, tínhamos
voltado ao normal.
Após o almoço a mamãe disse que
precisávamos ter uma conversa e me chamou para o escritório do vovô. Fomos
sozinhos, sob os olhares compridos de todo mundo. Quando voltamos, eu era filho
de pais separados. Eu estava muito mole naquele dia, chorei a tarde inteira
trancado no quarto.
À noite vi da minha janela que o
Jeremias não foi para a pedra, mesmo fazendo um céu danado de bonito. Acho que
ele governava o céu através do gigante, dando-lhe as moedas para fazer a noite
que ele queria.
Eu queria ter um gigante também para
mim!
