PRECONCEITO
O tiro atraiu a atenção de todos, pois
acharam que era o retorno do alemão Fausto e foi uma correria de gente para a casa
da dona Maruca, encontrando-nos por lá todo aflitos, sem saber o que fazer. Para
dizer a verdade nem liguei de ser pego em flagrante e saber que ia levar um
xingamento daqueles, pois estávamos desesperados com a velha desmaiada no chão.
Os adultos a acudiram e mandaram que fôssemos para casa dormir.
De manhã bem cedo, como esperado, a
vovó nos reuniu na mesa do café e foi logo fazendo um sermão daqueles. Ela
falou do nosso preconceito com a dona Maruca, só porque ela era mais arredia,
era de idade e juntava suas quinquilharias, e nos contou a verdade.
Na realidade, quando a vovó chegou na
casa dos meninos, era dona Maruca quem os defendia do Seu Fausto, porque o
tinha ouvido mandar a gente embora e depois os gritos dos meninos lá dentro. Entrou na casa para enfrentá-lo e
sendo tão pequena, fraca, e idosa, só podia se defender atirando as coisas em
cima dele. Ele já ia com tudo para cima dela quando minha avó chegou com o Jeremias
e mandou que ele partisse, ou chamaria o delegado Onofre. Ele foi, parece que
tinha problemas com a lei. Pois é, nossa colcha de retalhos estava toda torta,
entendemos tudo errado.
- Vocês conhecem a dona Maruca, já
conversaram com ela?, indagou minha avó. Balançamos a cabeça negativamente.
- O preconceito, ela continuou, parte
de uma impressão, de ver a pessoa e marcá-la sem motivo, sem conhecê-la. É
preciso conhecer uma pessoa para saber se gosta ou não dela. Eu já havia notado
que vocês sempre se referem a ela como “velha”, como “bruxa”. Recebendo só
palavras duras, só xingamentos e gozações, como é que ela poderia ser amistosa
e demonstrar seu lado afetuoso para vocês? Vocês poderiam tê-la matado com o
susto.; e vovó nos colocou de castigo para refletirmos sobre nosso preconceito.
É, eu conhecia isso, pois sendo gordinho,
era motivo de piada de meus amigos na escola. Era tanto isso, todos os dias, em
todas as brincadeiras “gordinho pra cá,
gordinho pra lá, chama o gordo, olha o gordo correndo, olha o gordo de maiô,
olha o gordo, olha o gordo, no meu time não...” que eu fui ficando tão agressivo, tão
envergonhado de mim que não queria mais sair, mais nadar, mais ir na escola e
só ficava fechado no meu quarto jogando videogame ou no computador. Só fazia
amigos virtuais. Minha mãe teve de ir falar com a diretora e houve várias
palestras sobre esse preconceito e sobre todos mais: contra outras raças, como
negros, orientais, contra sectarismos religiosos, sabe, ser hostil com alguém e
isolá-lo só por causa da religião que a pessoa tem, teve até esclarecimento
sobre o preconceito em relação às pessoas com alguma deficiência, aquelas com
necessidades especiais. Elas também são muito discriminadas. Esse processo de
isolamento se chamava “bullying”, essas atitudes de piadinhas e agressões entre
os indivíduos, nas escolas, nas relações de trabalho, ou nas brincadeiras. Isso
eu aprendi também na terapia. É, eu tive de fazer terapia, pois o estrago
psicológico que isso me deu na época me fez precisar de uma ajuda profissional
para desenvolver novamente minha autoestima. Por isso agora até me esqueço de
que sou gordinho e nem compenso minha angústia na comida.
Por que não conviver com a diferença?
Por que não respeitar os idosos? Os índios respeitam o conhecimento dos mais
velhos, suas experiências e aprendem com eles. Eles reverenciam esse saber.
Nós, ao contrário, desprezamos, nós nos impacientamos e somos rudes,
grosseiros, sem paciência. Os velhos têm a fragilidade de uma criança e a
consciência de um adulto. Deve ser duro saber de tudo que está se passando e
não ter resistência para reagir. Experimenta tapar os olhos e andar sem força!
Ficamos tão deprimidos quando somos
motivo de piada assim, piada sempre, com todos zombando da gente! Eu fiquei me
sentindo tão mal naquele dia, pois revivi todas minhas tristezas do meu tempo de
bullying. Entre um pensamento e uma lembrança eu me perguntava: afinal, se o
Jeremias sabia da história toda, por que foi com a gente assustar a velha, quer
dizer, a dona Maruca? Eu me revirava na cama sentindo um aperto no coração. Vô
Otávio veio falar comigo, como tinha feito com os outros. O vovô disse que
todos tiramos lições dessa história: é melhor contar as coisas para as crianças
ao invés de deixar que elas inventem e acreditem numa mentira como se fosse
verdade. Ele estava certo, mas isso não melhorava minha angústia.
Como pude fazer isso com a dona
Maruca?! Como o Jeremias pôde fazer isso com a gente?!
