A PESCARIA
Como já disse, a nossa turma era
formada pelo Nélio, Jeremias, Tio Astuto e eu, mais o Bentinho, às vezes, que é
o irmão caçula do Jeremias e tem só sete anos, e a Esmeralda quando a gente
tinha de ir para longe, que a vovó não deixava a gente ficar sozinho. Nesse dia
o Bentinho não foi.
Passamos toda a manhã no rio tentando
uma pescaria. Tio Astuto, Nélio e eu em um barco e a Esmeralda e o Jeremias em
outro. O barco deles não se apressava, vinha lento atrás da gente, e parecia
que eles nem ligavam para a pescaria. Devia ser por causa do sono do Jeremias.
De longe víamos que eles falavam bastante, e de perto eu via o Tio Astuto incomodado
com a falta de jeito dos dois na pescaria, pois vira e mexe ele olhava para os
dois lá atrás e resmungava, falava mal do sobrinho e gritava mandando eles se
apressarem.
- Pára de resmungar, Tio Astuto, vai
espantar os peixes!; dizia o Nélio segurando firme a sua vara.
De repente a Esmeralda começou a
gritar, parecia que algum peixão tinha fisgado a sua linha. Jeremias pulou para
ajudá-la com sua vara, mas não parecia ter força o bastante. Via-se a agitação
na água e a linha puxando estirada para lá e para cá. Esmeralda não soltava o
caniço envergado e também não parava de gritar.
- Solte a linha!, gritava o Tio Astuto,
e eles não ouviam.
Era impressionante a corrida do barquinho
puxado pelo “sei lá que coisa” que o puxava. Em questão de segundos, de uma
paradeira danada, começou o barco a deslizar, chegando até a ultrapassar o
nosso e a Esmeralda, acho que de nervoso, não soltava a linha, e da sua mão
escorria sangue, a gente podia ver. Acho que arregalei os olhos tanto quanto o
Nélio e o Jeremias ficava lá abestado, tentando soltar a linha da mão dela,
outra hora enrolando o carretel e machucando mais a mão da moça e tornando mais
forte o repuxo do “coisa ruim” que tivesse lá no rio.
De súbito um peixe maravilhoso,
grande, portentoso, deu um salto para fora da água no meio da corrida, parecia
feliz com essa brincadeira de nos assustar, e voltou para água puxando mais a
sua fuga. Do barco nós gritávamos de tudo:
- Dá linha...; gritava o Tio Astuto
- Segura...; gritava eu
- Essa coisa ruim é peixe?...,
perguntava-nos o Nélio com sua cara assustada.
Pois era, era um peixe grande e bonito.
A gente viu depois que o Tio Astuto pulou para dentro da água e sumiu lá no
fundo, com seu canivete na boca. Primeiro cortou a linha, pois a gente viu a
Esmeralda se libertando e caindo sentada de costas no barco. Jeremias correu a segurar
a mão da moça e jogar água do rio sobre seus ferimentos, era só o que podia
fazer, não tínhamos primeiros socorros em nenhum dos barcos. Nós do outro barco
de olhos espetados na água esperávamos notícias do Tio Astuto. Ele voltou
trazendo o peixe consigo. O que se passou lá embaixo ele há de contar algum
dia. Para mim, no entanto, ele deve ter lutado bravamente com aquele peixe,
como um Tarzan ou heróis que em tantos filmes eu assistira, aos meus olhos ele era
um herói que se erguia do rio em nossa direção.
O peixe era dourado, grande, pesado,
lindo. Pois é, só que deu uma baita confusão. É que enquanto a gente voltava para
a Esmeralda fazer um curativo em casa e também para exibir o peixão, estávamos
todos eufóricos, instalou-se a polêmica sobre quem tinha pescado o dourado: o
Jeremias, a Esmeralda ou o Tio Astuto. A Esmeralda dizia que o caniço era dela,
ela que tinha jogado o anzol e fora a isca dela que tinha atraído o dourado. O
Jeremias acrescentava que ele tinha ajudado a segurar, não fosse isso o peixe
teria escapado, e nós brigávamos que quem tinha tirado mesmo o peixe da água
era o Tio Astuto. Ele não falava nada, vinha quieto carregando o peixe. Só que
no meio de tudo a mão da Esmeralda começou a sangrar mais, o que obrigou o Tio
Astuto a rasgar um pedaço da sua camisa para amarrar a mão dela. Foi aí que o
Jeremias, só para mangar com a gente, agarrou o peixe e saiu na correria, dando
voltas ao nosso redor, e o Nélio e eu atrás dele.
O que a gente não esperava era o vovô
aparecer de repente junto com o “Seu” Neco, procurando um bezerro perdido
deste,, sei lá, só sei que os dois vendo o peixe na mão do Jeremias, começaram
a parabenizá-lo pelo seu grande feito, e foram arrastando o moleque com eles
admirados com o peso do bicho. Nós corremos atrás deles gritando, mas o ruim
dessa historia é que todo mundo sabia que a gente sempre puxava a brasa para o
lado do Tio Astuto e aí eles protegiam um pouco o Jeremias.
Quando alcançamos o sítio, todos já
comemoravam o grande feito do Jeremias de pegar um dourado daquele tamanhão,
aquela euforia dos adultos, e nós batendo boca com o sobrinho porque ele não
merecia as honras daquele feito. Não era justo. Só que até aí os adultos já não
nos ouviam com a devida atenção, a ferida da Esmeralda causou grande alvoroço e
por fim, só muito tarde o caso foi devidamente explicado e as glórias, como
dizia o vovô, vieram tarde e frias.
Qual seria a verdadeira justiça num
caso desses?!
