espaço de ser criança!

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sexta-feira, 3 de junho de 2016

TIO ASTUTO - CAP 4




A PESCARIA


Como já disse, a nossa turma era formada pelo Nélio, Jeremias, Tio Astuto e eu, mais o Bentinho, às vezes, que é o irmão caçula do Jeremias e tem só sete anos, e a Esmeralda quando a gente tinha de ir para longe, que a vovó não deixava a gente ficar sozinho. Nesse dia o Bentinho não foi.

Passamos toda a manhã no rio tentando uma pescaria. Tio Astuto, Nélio e eu em um barco e a Esmeralda e o Jeremias em outro. O barco deles não se apressava, vinha lento atrás da gente, e parecia que eles nem ligavam para a pescaria. Devia ser por causa do sono do Jeremias. De longe víamos que eles falavam bastante, e de perto eu via o Tio Astuto incomodado com a falta de jeito dos dois na pescaria, pois vira e mexe ele olhava para os dois lá atrás e resmungava, falava mal do sobrinho e gritava mandando eles se apressarem.

- Pára de resmungar, Tio Astuto, vai espantar os peixes!; dizia o Nélio segurando firme a sua vara.

De repente a Esmeralda começou a gritar, parecia que algum peixão tinha fisgado a sua linha. Jeremias pulou para ajudá-la com sua vara, mas não parecia ter força o bastante. Via-se a agitação na água e a linha puxando estirada para lá e para cá. Esmeralda não soltava o caniço envergado e também não parava de gritar.

- Solte a linha!, gritava o Tio Astuto, e eles não ouviam.

Era impressionante a corrida do barquinho puxado pelo “sei lá que coisa” que o puxava. Em questão de segundos, de uma paradeira danada, começou o barco a deslizar, chegando até a ultrapassar o nosso e a Esmeralda, acho que de nervoso, não soltava a linha, e da sua mão escorria sangue, a gente podia ver. Acho que arregalei os olhos tanto quanto o Nélio e o Jeremias ficava lá abestado, tentando soltar a linha da mão dela, outra hora enrolando o carretel e machucando mais a mão da moça e tornando mais forte o repuxo do “coisa ruim” que tivesse lá no rio.

De súbito um peixe maravilhoso, grande, portentoso, deu um salto para fora da água no meio da corrida, parecia feliz com essa brincadeira de nos assustar, e voltou para água puxando mais a sua fuga. Do barco nós gritávamos de tudo:

- Dá linha...; gritava o Tio Astuto

- Segura...; gritava eu

- Essa coisa ruim é peixe?..., perguntava-nos o Nélio com sua cara assustada.

Pois era, era um peixe grande e bonito. A gente viu depois que o Tio Astuto pulou para dentro da água e sumiu lá no fundo, com seu canivete na boca. Primeiro cortou a linha, pois a gente viu a Esmeralda se libertando e caindo sentada de costas no barco. Jeremias correu a segurar a mão da moça e jogar água do rio sobre seus ferimentos, era só o que podia fazer, não tínhamos primeiros socorros em nenhum dos barcos. Nós do outro barco de olhos espetados na água esperávamos notícias do Tio Astuto. Ele voltou trazendo o peixe consigo. O que se passou lá embaixo ele há de contar algum dia. Para mim, no entanto, ele deve ter lutado bravamente com aquele peixe, como um Tarzan ou heróis que em tantos filmes eu assistira, aos meus olhos ele era um herói que se erguia do rio em nossa direção.

O peixe era dourado, grande, pesado, lindo. Pois é, só que deu uma baita confusão. É que enquanto a gente voltava para a Esmeralda fazer um curativo em casa e também para exibir o peixão, estávamos todos eufóricos, instalou-se a polêmica sobre quem tinha pescado o dourado: o Jeremias, a Esmeralda ou o Tio Astuto. A Esmeralda dizia que o caniço era dela, ela que tinha jogado o anzol e fora a isca dela que tinha atraído o dourado. O Jeremias acrescentava que ele tinha ajudado a segurar, não fosse isso o peixe teria escapado, e nós brigávamos que quem tinha tirado mesmo o peixe da água era o Tio Astuto. Ele não falava nada, vinha quieto carregando o peixe. Só que no meio de tudo a mão da Esmeralda começou a sangrar mais, o que obrigou o Tio Astuto a rasgar um pedaço da sua camisa para amarrar a mão dela. Foi aí que o Jeremias, só para mangar com a gente, agarrou o peixe e saiu na correria, dando voltas ao nosso redor, e o Nélio e eu atrás dele.

O que a gente não esperava era o vovô aparecer de repente junto com o “Seu” Neco, procurando um bezerro perdido deste,, sei lá, só sei que os dois vendo o peixe na mão do Jeremias, começaram a parabenizá-lo pelo seu grande feito, e foram arrastando o moleque com eles admirados com o peso do bicho. Nós corremos atrás deles gritando, mas o ruim dessa historia é que todo mundo sabia que a gente sempre puxava a brasa para o lado do Tio Astuto e aí eles protegiam um pouco o Jeremias.

Quando alcançamos o sítio, todos já comemoravam o grande feito do Jeremias de pegar um dourado daquele tamanhão, aquela euforia dos adultos, e nós batendo boca com o sobrinho porque ele não merecia as honras daquele feito. Não era justo. Só que até aí os adultos já não nos ouviam com a devida atenção, a ferida da Esmeralda causou grande alvoroço e por fim, só muito tarde o caso foi devidamente explicado e as glórias, como dizia o vovô, vieram tarde e frias.

Qual seria a verdadeira justiça num caso desses?!